Paris lumière

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Foto Fernanda Pompeu Foto Fernanda Pompeu

Depois de 11 horas de voo, sem dormir nada, cheguei quebrada. No entanto animada. No aeroporto, houve a calorosa acolhida da Régine Ferrandis e de sua filha Joana, a bela. Joana se casa no dia 30 de junho e essa é a razão principal da minha vinda e da Márcia. Pois vivemos com a Joana quando ela era uma adolescente – essa fase tão especial de descoberta do mundo. É adorável que ela se case em Paris, porque afinal qualquer motivo para rever a cidade é bem-vindo.

Sinto admiração por Paris que preserva com tanto gosto o seu passado. Tão diferente de Sampa – que apesar de eu amar – despreza qualquer construção, marca, símbolo com mais de 30 anos. Cidade que vive de novidades e de reformas. Troca a janela, troca a porta, põe mais dois banheiros. Mete a cozinha onde era a sala e enfia a sala na varanda (que nasceu aberta, mas com a primeira graninha a gente fecha).

Mas voltando a Paris e aos franceses, a questão não é só de forma. Eles não cuidam apenas dos prédios, ruas e símbolos. Eles ostentam orgulho da própria história. Mesmo hoje, passados mais de 200 anos da Revolução Francesa, o slogan Liberdade, Igualdade e Fraternidade está em muitos lugares. Por exemplo, na fachada de uma escola infantil do Quartier Latin.

escola no quartier latin

foto Fernanda Pompeu

O Quartier Latin, na Rive Gauche, foi o centro das concentrações das rebeliões do Maio de 68. A juventude na rua fazendo barricadas e pondo pra fora frases memoráveis como A imaginação no poder, É proibido proibir e tantas outras que escaparam da minha memória. Foi um momento máximo da união estudantes-trabalhadores. Utopia? Provavelmente.

No entanto, ter utopias é bastante saudável. Elas são como sonhos coletivos. Muito difíceis de concretizar (aliás, como a maioria dos sonhos). Mas sonhar faz um bem danado. E quando o desejo é coletivo, os olhos marejam num misto de alegria e esperança. Porque ninguém transforma nada sozinho. É uma grande mentira dizer que cada um faz o seu mundo, a sua verdade. Somos – desde sempre – seres interligados.

Mesmo hoje a França que elegeu um presidente de centro – o Emmanuel Macron – segue orgulhosa da sua história, da sua vasta cultura. Me sinto feliz caminhando por aqui. Paris faz bem para os olhos, mesmo quando esses olhos estão cansados. Sinto que a cidade murmura: Valeu a pena tudo o que os mortos fizeram. Sento num café e acendo um cigarro. Aqui ainda pode.

Brinde

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16 respostas para “Paris lumière”

  1. cida santos disse:

    Texto com gosto de sorvete.

  2. Marisa Paifer disse:

    Viajaremos com você, Fernanda. Com suas análises profundas e saborosas, ditas com leveza!
    Bon jour!

  3. Ana.Muniz disse:

    Haja luz!! Delícia… Ponto essencial aos olhos: A preservação dos edifícios antigos, sendo que aqui, praticamente não. Aqui, dói ver, dói imaginar.

  4. Alba Figueroa disse:

    E para honrar a sua chegada, em pleno solstício, o luminoso estava gigante no céu,como que ofertando um trópico de fantasia para vocês.

  5. VERA VIEIRA disse:

    Obrigada, querida, por me transportar nessa viagem maravilhosa! Beijos

  6. Ivana Lopes disse:

    Texto gostoso de ler. Visitei Paris lendo suas palavras, pelo seu olhar. Pena que no Brasil, não só em São Paulo, não valorizamos nossa história, nossa cultura, que é tão rica e tão bonita. Paris deve ser mesmo uma festa para os olhos.

  7. […] não apenas as construções e referências em volta– que contam muitas histórias da História – fazem o Sena passar de comum a glamoroso. […]

  8. […] de sua morte valeria ser manchete. Pois o cara simplesmente inventou o mouse. Em 1968, enquanto Paris ardia nas mãos da juventude e o Brasil esfriava com o AI-5, Engelbart apresentava seu invento em […]

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