Paris – Sena pra chamar de seu

o rio de Paris

Pintor no Sena Foto Fernanda Pompeu Pintor no Sena Foto Fernanda Pompeu

Passei as férias da minha infância na casa da minha avó Affonsina e do meu avô Julio. Eles moravam em frente ao rio Maracanã, na Tijuca carioca. Chamar o Maracanã de rio é generosidade. Degradado, poluído ele estava mais para um córrego. Fétido. Mas era o rio da criançada. Nós o adorávamos. Eu o observava e imaginava que embaixo das águas turvas havia pequenos seres azuis e vermelhos. E por que não? Estrelas do mar.

Também assisti à impressionante enchente do verão de 1966. Como no poema do Bertolt Brecht, as águas do Maracanã pularam fora do leito, tomaram as margens e invadiram as casas ao redor. A dos meus avós virou uma lagoa barrenta. Os adultos se desesperaram. Nós, as crianças, nos divertimos pra valer. Ficamos torcendo por uma segunda invasão (que se repetiria um ano depois).

Apenas na juventude conheci o rio Paraná – em tupi, parecido com o mar.  Também tive a ventura de observar o bravo Urubamba no Vale Sagrado dos Incas. Aos 50 anos naveguei no rio Amazonas. Segundo minha amiga Alba Figueroa, O Imenso. Acrescento na lista o Danúbio – que separa Buda de Peste na Hungria. E o Negro em Manaus.

Foto do rio Sena Paris

Sena Foto Fernanda Pompeu

Aqui em Paris, é claro, tem o Sena. Todo mundo se apressa para vê-lo devagar. É uma espécie de Copacabana francesa que atrai nativos e turistas. É experiência deleitosa passear por sua margens. Rive Gauche, Rive droite, tanto faz. Mas, segundo o currículo do meu olhar, o Sena não é propriamente bonito. Falta-lhe volume, movimento, largura. O que o faz tão especial é a cidade de Paris. E, sem dúvida, as magníficas pontes que encantam até os olhares mais duros, as retinas mais secas.

Mas não apenas as construções e referências em volta– que contam muitas histórias da História – fazem o Sena passar de comum a glamoroso. O que funciona mesmo é a aderência dos parisienses ao rio. Eles fazem piqueniques, se sentam nas beiradas a contemplar, passeiam por suas margens de bicicleta, skate. Ora correm, ora flanam. Se detêm no alto das pontes e espicham o olhar para as águas. Tipo lente olho de peixe. As águas, as margens, as pontes, o céu.

Entardecer no rio Sena

Rio Sena Foto Fernanda Pompeu

E, ao menos no verão, há o espetáculo dos barcos – apinhados de turistas – que transitam para baixo e para cima o tempo todo. Para o observador a visão é divertida. Velhos, jovens, crianças empunham celulares fotografando, filmando a cidade que vêem. Por um momento que seja o Sena é de todos. É o rio da aldeia do Fernando Pessoa. É o rio Maracanã da minha infância

Brinde

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Uma resposta para “Paris – Sena pra chamar de seu”

  1. […] as voltas. São as histórias de cada um. Eternamente, o rio Maracanã é o rio do meu […]

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