A vida é raçuda

Com que cor eu vou?

Arte Régine Ferrandis Arte Régine Ferrandis

Alvorada
Acordar cedo é fonte de sofrimento para Celina Macunis. Toda vez que é obrigada a sair da cama antes das 10, vivencia a espantosa sensação de ter apenas metade do cérebro. Mais ou menos assim: um olho espia, o outro se fecha. Um ouvido escuta, o outro ensurdece. Uma mão trabalha, a outra adormece.

Mas nesta manhã, Celina acordou antes das 9h. Muito feliz. É o seu dia D – não tão famoso quanto o Dia D que marcou o desembarque dos aliados na Normandia, em 1944, iniciando a derrota do exército de Hitler. Mas para sua pessoinha é um dia tão histórico quanto.

Hoje, ela deixará a coxia em direção ao palco. Se a sorte estiver ao seu lado, poderá divorciar-se do anonimato para casar com o reconhecimento. À noite, ela irá estrear como atriz principal. Celina vai emprestar corpo, postura, voz, emoção para Rania Mussalan – protagonista da peça Somos todos Árabes.

A jovem atriz traz o teatro correndo nas veias. Tudo nela é um tanto épico: a postura do corpo, as roupas, a entonação da voz, as máscaras do temperamento. Desde que ela se lembra dela, namora com a representação. Celina nunca foi bobinha, ao perceber o próprio talento descobriu que precisaria se esforçar com afinco. Quanto maior o talento maior o trabalho, reza o provérbio.

Ela saltou da cama, abriu a janela, recebeu um dia azulado e promissor. Fez os cálculos, sobraram alguns créditos para a preguiça, voltou para debaixo do edredom cor-de-rosa, presente da mãe no seu último aniversário. 30 anos, meu Deus!

Preparação
Na cidade do interior paranaense, nas bandas do Canyon do Guartelá, onde nasceu e cresceu, Celina compreendeu que fazer arte seria luta da vida inteira. Tem gente que trabalha em prol de causas sociais. Outros para ganhar dinheiro. Outros, a maioria, para ganhar dinheiro para as empresas. Eu me concentrei em ser o que sonhava.

Na escola, série após série, ela se preparava para a peça de final de ano. Os temas representados eram bíblicos, sempre relacionados ao calvário de Jesus. Tratava-se de uma escola de freiras.  Nas apresentações, havia muita roupa branca e um pouco de vermelho (do sangue de Cristo) aqui e ali.

A cidade de Tibagi, em peso, acorria ao auditório da escola. Mulheres iam de longo, homens desfilavam suas camisas sociais. Crianças vestidas de domingo. Celina se recorda do cheiro de água de colônia de corpos recém-saídos das duchas Fame.

Durante o ano letivo, a preparação era intensa. A professora de educação artística dona Do Carmo mandava os candidatos decorarem as falas, Celina decorava. Exigia que eles afinassem ou engrossassem a voz, Celina afinava ou engrossava. Pedia que eles ensaiassem alguns passos de dança, Celina aprendida balé. Se a personagem era magra, Celina passava fome. Se era gorda, Celina engolia quindins e brigadeiros.

Tudo o que seu mestre mandar. E muito mais. Em casa contracenava com a irmã e irmão menores. O palco era a mesa de passar roupa, comprida e larga. A menina subia e punha emoção no corpo e na voz. Ora era cômica, ora era dramática. Uma atriz mirim completa.

Mas na hora da escalação Celina Macunis não ganhava nenhum papel. Entrava e saía ano e ela não subia na ribalta nem para encarnar a décima segunda figurante.

Dona Selma, patroa de Francisca, a mãe de Celina, falava firme:
− Celina, põe os pés no chão. Esquece essa história de teatro. Você deve estudar para no futuro ajudar sua mãe, seu pai, seus irmãos. Você é inteligente, pode estudar para contadora.

A filha de Francisca se revoltava em surdina. Selminha, caçula da dona Selma, pouco se esforçava e sempre era escalada. Uma última vez, Celina inquiriu a professora Do Carmo.
A resposta foi:
− Seu tipo físico não combina com nenhuma personagem.
− Nem com um anjinho? Aqueles que entram mudos e saem calados?
− Celina, você já viu anjo preto?

Descoberta
Ao sair do colégio de freiras e da cidadezinha rumo a Curitiba, Celina pôs na cabeça que venceria no teatro. Mesmo que tivesse que acordar antes das 10h, almoçar e jantar sapos, varrer salões de prédios oficiais, trabalhar em bilheterias, aguentar os chatos e as chatas de plantão.

Foi uma estrada dura. No teatro amador, ela também teve que avançar palmo a palmo, negociação a negociação. Os papéis que lhe eram oferecidos não mudavam: empregada doméstica, babá, costureira. Às vezes, auxiliar de enfermagem.

Não que Celina desprezasse essas profissões. Sabia que funções básicas, via de regra, são exercidas por gente batalhadora. Tinha como exemplos, a mãe empregada doméstica e o pai funileiro.

O que doía na jovem atriz eram os papéis marcados. Se a maioria dos dramaturgos não determinava a cor das personagens, por que uma atriz negra não poderia vivê-las? Se o teatro era invenção e arte, qual o problema de uma Cleópatra preta? Ou se uma nossa senhora Aparecida japonesa?

A sina começou a mudar no dia que Celina Macunis conheceu o pessoal do Teatro da Raça. Jovens e talentosos artistas que abriam, a braçadas, espaços. Ela soube que, muito antes da geração deles, atrizes e atores negros haviam pisado em brasa viva para subirem no palco ou porem a cara na televisão.

O Teatro da Raça deu e tirou energia de Celina. Foi deslumbrante entrar no grupo e doloroso sair. Mas ela fez. Havia descoberto que não tinha interesse em um teatro étnico. Dos pretos para o pretos. Não estava interessa em nenhum teatro adjetivado. Tudo o que queria, desde o colégio das freiras, era fazer uma arte de mulheres e homens para um público de mulheres e homens. Daí partiu para a batalha solo.

Telefonema
− Alô, filha.
− Oi, dona Francisca, tudo bem?
− Liga a tv.
− O quê?
− Não demora. Liga agora! Corre!

Ah, minha mãe. Sempre a mania de mandar eu ligar a tv para assistir à polícia perseguindo bandido, bandido perseguindo polícia. Viciados em crack correndo de assistentes sociais, assistentes sociais correndo atrás de viciados em crack.  Mas hoje não!

Nesta manhã, a atriz quer tudo zen. Desligou a tecla de volume do telefone.Trancou-se no quarto para repassar, pela milésima vez, as falas da personagem Raina Mussalan, uma feminista em Beirute.

Ao não ouvir a mãe, Celina Macunis perdeu a oportunidade de acompanhar ao vivo um evento espantoso. Na capital do capital, Nova York, as famosas torres gêmeas foram atacadas por aviões comerciais. Enquanto a primeira, com um boeing no ventre, ardia tal bola de fogo, um segundo avião foi jogado contra a torre vizinha. Resultado: dois prédios – cada um com mais de 100 andares e com 99 elevadores –  caíram arrastando um oceano de poeira, ossos, fumaça, peles, ferro, vidas.

Quando voltou a habilitar o som do telefone, ele tocou imediatamente. Antes de atender, Celina nem suspeitava que este 11 de setembro de 2001 entrava na história, não por causa de sua estreia, mas por conta do maior atentado terrorista contra o império americano.

− Nossa, Igor!!! Então foi por isso que minha mãe mandou eu ligar a tv
− Também meteram um avião no Pentágono e um quarto caiu ou foi derrubado na Pensilvânia
− Uau!

Carinha legal o Igor, técnico de som da peça. Celina suspeitava que ele tinha uma quedinha por ela. Ela não tinha uma quedinha por ele, mas gostava da sensação de ser desejada.

Quase lá
Celina foi agitar o último ato de sua toalete. Os cabelos. Ontem, passou o dia no salão da Dinha cuidando das tranças. Ficaram tão bonitas que parecem cópias do mais belo rendado de mãos cearenses. A cabeleira e a atriz são amigas de infância. Dinha está muito bem no seu negócio Cabelos afros – cuidados e criações.

Em frente ao espelho, cuidando dos fios entrelaçados, Celina vai repassando momentos de vida. Lembra de sua última e mais significativa vitória. Ela convenceu Helô Cannabrava, uma das melhores diretoras teatrais do Brasil, que tinha plenas condições de viver Rania Musallan – a protagonista da peça Somos todos Árabes.

No princípio, Helô titubeou:
− Será que o público achará estranho uma árabe negra?
Celina foi incisiva:
− Árabes não são exatamente brancos. Depois, o teatro não é a realidade. Ele é representação.

A diretora, do alto dos setenta e picos anos, surpreendeu-se com a petulância intelectual da jovem atriz. Saiu-se da saia justa:
– Para mim, tanto faz se uma atriz é branca, preta, amarela. O que me importa é saber se tem talento e garra.

Daí negociaram. Cannabrava passou uma cena de Rania Musallan para Celina estudar.
– Você tem até amanhã à noite.
− Terei concorrentes?
− Você disputará o papel com duas atrizes. Por caso, brancas como papel fotográfico.

Desnecessário contar que Celina foi a escolhida. Na hora do teste, respirou fundo e sussurrou para si mesma: Vamos lá, filha da doméstica e do funileiro. Você se preparou a vida inteira. Só faltava a oportunidade. Agora ela está na sua frente. Agarre-a!

Por 6 meses, sob a direção de Helô Cannabrava, Celina e os colegas ensaiaram, do final da tarde ao começo da madrugada, a peça Somos todos Árabes escrita por Angeles Necoechea, dramaturga e roteirista mexicana.

Celina Macunis abandonou as tranças e o espelho. E se ninguém for? Se todo mundo estiver perturbado com o atentado terrorista? Será que irão cancelar a peça? Não mereço tamanho azar.

Desenlace
A estreia se deu. Havia 40 pessoas em um auditório de 120 lugares. Todos brilharam no palco. Celina esteve estupenda como Raina Mussalan. Ao contrário da sua fantasia, no dia seguinte, e por todo o ano, a mídia não comentou nada da peça.

Fosse no passado, Celina se poria muito triste. No entanto, amadureceu. Compreendeu que seu trabalho está tão somente começando. Caiu a ficha de que o tal porto de chegada nada mais é do que o porto de partida. Sorriu e seguiu.

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2 respostas para “A vida é raçuda”

  1. Marilda disse:

    Adorei ! Você combinou muito bem os elementos fortes com a narrativa de modo a não explodir a estrutura. Adorável. Renda linda. Abraço com carinho.

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Seu comentário me fez pensar: Temas fortes precisam da companhia de linhas leves. É como se você não quisesse dizer nada sério, mas na verdade está. Beijo, Marilda.

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