Palavra seca

Bem-aventuradas as que falam

Foto: Fernanda Pompeu Foto: Fernanda Pompeu

O salão fervia de gente encalorada a ouvir frases de 2000 anos: Bem-aventurados os famintos porque serão saciados. Lá essa esperança era com eles, experimentadores da fome desde a barriga das mamães. Havia, entre muitos, quem tinha degustado a cal das paredes e a terra dos quintais. Em Grotão de Dentro, a única fartura é o sol. Já nasce ardente. A pino frita até minérios. Ao se pôr, todavia estorrica. Para se reunirem no salão, nesse domingo de Ramos, as pessoas com solas de pé agrestes caminharam, horas, sobre um chão gretado. Sem uma única árvore a franquear sombra, sem nenhum arroio a dadivar água.

Apesar das sendas torcidas sem vento nem brisa, no dia do Senhor e dos santos: mulheres, homens, crianças, velhos e velhas afluem ao salão. São recebidos pelo diácono Marcus. Mais do que olhar os paramentos, melhor do que cheirar os incensos, muito além de chupar a hóstia, superior a dar as mãos, é escutar as palavras gordas. O diácono com seu discurso claro e assertivo encanta os ouvidos dos irmãos analfabetos. Nessa curva flamante do mundo, a maioria não lê nem assina o nome. Entre as mulheres, 90% por cento não juntam abc. Mas sabem parafrasear: Mesmo que eu escrevesse em todas as línguas do mundo, sem o amor eu não seria nada.

Finda a eucaristia, saiu a procissão de Ramos a celebrar a entrada de Cristo em Jerusalém e o começo da Semana Santa. Não contou com as tradicionais palmas, mas com flores de cactos. Se fosse observada de um helicóptero, a procissão pareceria um rio estreito e comprido. Por não ter mar a alcançar, o rio de gente dá voltas em torno do salão que funciona ora como templo, ponto de encontro, cadeia provisória, casa de baile. Também cede espaço aos velórios, casórios, batizados. De tão social, a gente do lugar deu-lhe o nome de O Clube. O salão-clube e o bar Maria Bonita são as duas únicas instituições públicas de Grotão de Dentro.

Quando a procissão cessou, cada qual juntou os familiares e agarrou os caminhos de volta aos casebres sem água, sem luz, sem fossa sanitária. Um grupo de uns 30 permaneceu no salão. Sob a orientação do diácono, formam a comissão de preparação da romaria. Os peregrinos deixarão Grotão de Dentro em direção ao templo da Nossa Senhora das Águas, em Pororoca. Serão 2700 quilômetros em cima de um ônibus. Essa distância é a necessária para tirá-los da depressão da seca e introduzi-los na inflação das águas.

Pororoca é a única cidade do mundo erguida sobre o leito de um rio. Suas construções são flutuantes. Ruas, praças, feiras estão embebidas de umidade. O corpo humano é formado por cerca de 70% de água, os pororocaenses acusam uma média de 85%. Estudos indicam que os rins e as bexigas dos nativos são maiores do que os da gente de fora. Sua padroeira recebe anualmente milhões de peregrinos. O pedido não varia: água para matar a sede, desinfetar as feridas, garantir a vida, ressuscitar a terra aviltada.

Para participar da comissão o diácono Marcus impôs requisitos: integrar a romaria; comparecer às reuniões; votar na falta de consenso. Todos se enquadraram. Verdade que a Maria do Antenor chegava muda e partia calada. De sua boca: nenhum ai, nenhum ui. Havia quem achasse que sua mudez era de nascimento. Outros creditavam seu silêncio ao trauma coletivo de décadas atrás: o único circo que apareceu nas redondezas pegou fogo matando crianças e elefantes. Uma geração inteira ficou marcada pela tragédia. Ninguém ouvira Maria do Antenor dizer: Como devota de Nossa Senhora das Águas vou a Pororoca. No entanto, quando cada um morreu com a primeira prestação, em um total de 12, da passagem de ônibus, Maria tirou o dinheirinho de dentro do sutiã.

Perceberam que a quantia pagava só a parte dela. E o Antenor? Rememorando, nenhum deles conhecia o homem de Maria, não se lembravam de tê-lo visto. Também os dois moravam no cafundó da cafundoca de Grotão de Dentro, onde Judas ficou sem as meias, porque as botas ele perdeu quilômetros antes. Pior: viviam sem vizinhos por horas de caminho. À boca pequena, o povo fofocava: Maria trancafiava o marido em casa, pois tratava-se de um louco, desses que mordem. Cão raivoso em forma de gente. Os mais pragmáticos rumoravam: Na febre da fome, Antenor arrancou, condimentou e comeu a língua da companheira.

Considerações em torno de Maria eram infrequentes. Na maior parte do tempo ela não era percebida, o que se traduzia na desinformação geral acerca de sua vida. Não bastasse, havia os comportamentos de sempre: os jovens não atentavam em ninguém com mais 40 anos. Os mais velhos não se interessavam por quem não demonstrasse interesse por eles. Os maduros não tinham mais olhos para os maduros. Mudinha da Silva, Maria do Antenor dava sua contribuição pessoal para o ostracismo. Seu silêncio era uma fortaleza protegendo-a de qualquer provocação. Se ela fosse um país seria dos que erguem, contra os vizinhos, fronteiras de cimento armado.

Faz 3 meses que a comissão iniciou seus trabalhos. Tantas as demandas: gerência dos parcos recursos, contrato para a viagem de ônibus, estada de dois dias e uma noite, víveres para durar de ida à volta. Também realizaram ensaios coletivos dos cantos e oferendas para Nossa Senhora das Águas, intimamente chamada de NSA. Quando se é miserável, todas as iniciativas são complexas e o sucesso de uma empreitada exige alta criatividade. O resumo é que não poderiam ir se tivessem que custear o pernoite. O diácono Marcus ajudou. É dele a carta à prefeita de Pororoca pedindo colaboração pelo motivo de pobreza extrema. A resposta veio positiva: cessão da quadra municipal de esportes por uma noite.

A romaria partirá no próximo domingo. A gente do Grotão de Dentro nasce e morre rezando por chuva. Vão pedir a NSA para interceder, por eles, com o filho. Desejam que Jesus relembre sua própria frase: Quem beber da água que eu der jamais terá sede. Se pudessem pediriam também por comida, mas ainda não descobriram uma Nossa Senhora dos Alimentos ou dos Estômagos Aflitos! Eles também temem misturar as estações, cada santa tem o seu métier e, mesmo chegadas à diretoria divina, não podem tudo. Apesar da precariedade e rudeza da vida, são inteligentes o suficiente para saberem que a presença da água semearia chances de riquezas.

Maria do Antenor prefere pensar a falar. O pensamento é o seu rio extenso e caudaloso. Timoneando um barquinho, ela sonha por realidades boas: dormir em cama macia, passear de avião, ouvir belas melodias, perfumar-se com alfazema, adquirir um passaporte vitalício para um bosque repleto de vegetação e olhos d’água. Quando o pensamento é ruim, ela afasta-o repetindo igual gesto com que espanta um pernilongo zumbindo no ouvido.

Na infância, sua mãe dividia-se entre criar os 15 filhos e afogar-se na aguardente de cana a título de atenuar as faltas de comida e de esperança. Dona Eudóxia, à medida que enchia a cara, esvaziava o coração. Maria era a caçula. Os irmãos mais velhos a levavam de uma gruta a outra como se fosse uma trouxinha de ossinhos frágeis e carninhas magras. Mas o pior era a falta de oportunidade à voz. Ninguém a consultava para nada, nem mesmo quando das brincadeiras. A mãe se aproximava gritando: Cala a boca, comigo criança não opina.

Com o passar dos anos, comemorados por centenas de aves de rapina a anunciar vítimas da seca, uma e outra vez ela tentou se expressar. Dizer o que achava de um assunto, propor solução para um problema, até arriscar dois versos com rima. Ou falar pelo prazer de atirar adjetivos e superlativos pela janela. Repassar anedotas. Afinar conversas fiadas, moles, jogadas fora. Mas sempre aparecia um tio, um primo, um irmão a dizer: Cala a boca, você é burra. Então ficou mais cômodo esconder-se atrás da língua, tornar-se invisível, fingir-se de morta.

Quando chegou a hora do compromisso, ela casou-se com o Antenor. Se gostavam. Na época não existia O Clube. A cerimônia deu-se na casa de dona Eudóxia, nesse momento a mais famosa pinguça de Grotão de Dentro. O casal foi morar na cafundoca do cafundó, a esperar os filhos que ele nunca inseminou. O tempo descoloriu o entusiasmo e no seu lugar não vicejou o amor. Antenor tornou-se monossilábico. Repreendia a mulher: Cala a boca, o silêncio é o melhor orador. De tanto emudecer, as cordas vocais de Maria atrofiaram, o verbo voltou-se para dentro e explodiu entre as células. Maria tornou-se cada vez mais muda.

Ela entrou na comissão porque o desejo de participar da romaria era maior do que o hábito do silêncio. Não foi pela Nossa Senhora das Águas, Maria é agnóstica. A razão do esforço está em tomar banhos de temporal em Pororoca. Um desejo que vem antes do antes dela: abrir os braços, a modo de abraço, embaixo de uma tromba d’água. Abrir a boca, a modo de uma náufraga, a matar a sede com gotonas do aguaceiro. Abrir as pernas, a modo de mulher apaixonada, a sentir molhar o sexo. Receber no corpo – ressecado pelo sol, moído pela lida, solteiro de amor – os pingos grossos generosos perfeitos do chuvão. Encharcar-se a não ter fim.

O domingo de Ramos alcançou o fim da tarde. O diácono pôs-se a ler a lista, confeccionada por uma subcomissão, com a numeração das cadeiras do ônibus e os nomes dos respectivos ocupantes. A Maria do Antenor coube a 49. A última do corredor, em cima da roda, ao lado do banheiro. Em outras palavras: o pior de todos os assentos. Então ela falou: Vamos sortear os lugares, pois todo mundo pagou igual. O povo no salão ficou boquiaberto. Sua voz soou tão gutural e firme que o sorteio foi imediatamente feito. A sorte mangou de Maria. Ela tirou o 47, coladinho no 49. Mas estava feliz.

O fato: as pessoas se surpreenderam! Mas quem mais se alvoroçou no susto foi Maria. Ao ouvir a própria voz, sentiu que asas brotaram no seu corpo. Decolou escarnecendo do medo atávico. Voou na satisfação de opinar. Quando pousou, no centro do salão, tinha uma certeza: nunca mais voltaria à tumba do silêncio. Ela se faria escutar independentemente de seus poros arrepiarem, seu rosto incendiar, seu coração saltar garganta fora.

Um rapazote, baforando um cigarro de palha, ironizou: 47 ao lado do 49, o sorteio adiantou alguma coisa? Ela respondeu: Foi o justo. Altiva pela primeira vez na vida, se levantou em direção à porta. Então se virou para a audiência emudecida. Abriu a boca, pronunciou com perfeição letra a letra: Tem mais uma coisa, parem de me chamar de Maria do Antenor. Meu marido morreu para mais de 10 anos. Meu nome de batismo nunca foi Maria. Me chamo Antonia Nascimento Brito de Andrade e Alvarenga.

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13 respostas para “Palavra seca”

  1. Claude disse:

    Amei esse conto. Muito bom de ler

  2. Silvana Moura disse:

    Que bom ler um conto tão rico em detalhes.Adoro!

  3. Erik Araujo disse:

    Olá…

    Aprovado e lido. (:

    Abraço, beijo.

  4. Margareth disse:

    Texto maravilhoso, Fernanda. Um ancho deleite. Perfeito ! Grata.

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