Ponto chique do bauru no Paissandu

Tem história pra todo lado

Foto Fernanda Pompeu Foto Fernanda Pompeu

Alguém já disse que mais do que formados por células, somos formados por histórias. Acrescento: não só nós. Os sanduíches também. Conheça a história do bauru, nascido no Ponto Chic do Largo do Paissandu

Na quarta-feira passada, zanzando pelo centro de Sampa, entrei no Ponto Chic do Largo do Paissandu. É claro, pedi um bauru. Afinal esse histórico sanduíche, nativamente paulistano e conhecido em todo o Brasil, nasceu exatamente no bar Ponto Chic do Paissandu.

O Ponto Chic foi inaugurado em 1922, o ano da Semana de Arte Moderna – essa que marcaria a cultura brasileira para sempre. Contam que muitos modernistas comiam e bebiam por lá. Entre eles, as pintoras Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, os escritores Oswald de Andrade e Mario de Andrade.

Mario em um poema genial pede aos amigos que quando ele morrer espalhem pedaços de seu corpo pela cidade: No Paissandu deixem meu sexo. O pedido do poeta fazia sentido. O Largo do Paissandu era uma Vila Madalena dos anos 1920. O epicentro da vida boêmia sampalina.

Antes dos modernistas, o Paissandu já havia sido palco de várias manifestações da cultura popular. Lugar onde o povo se encontrava para se entreter, muito antes do rádio e da televisão. Por lá passaram circos, danças afro-brasileiras, faquires, elefantes da Índia.

Hoje o Paissandu, como grande parte do outrora belo centro de São Paulo, está caidão. Muitos paulistanos deram as costas para a região. Existem garotas e garotos que nunca circulam pelo Largo, com exceção dos amantes do pop, pois lá também está a Galeria do Rock.

Pode até ser que agora com a recém inauguração do Sesc 24 de maio – projetado pelo premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha – o entorno do Largo volte a dar alegrias culturais. Fará muito bem à cidade.

No Paissandu, ainda sobrevive a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Construída por volta de 1908, em sistema de mutirão, por mulheres e homens negros. Por razões óbvias, a Igreja dos Homens Pretos tem um significado especial para a população negra. Também é verdade que garotas e garotos negros pouco sabem disso.

O Ponto Chic resiste no Paissandu, atende a uma clientela eclética, como eclética é a cidade de São Paulo. Talvez de todas as capitais, Sampa seja a que mais entenda a palavra diversidade. Por aqui navegam todos os tipos, tipinhos e tipões. Do motorista de Brasílias amarelas aos de Tucsons prateados.

A história oficial da criação do bauru no Ponto Chic é a seguinte: um estudante de direito de outro largo, o de São Francisco, apelidado pelos colegas de Bauru por ter nascido nessa cidade, pediu ao sanduicheiro: Pão com queijo, rosbife, tomate e pepino.

Agradou a receita! A turma da Faculdade de Direito entrava e pedia um bauru. Daí o sanduba pegou. Outros bares e padarias passaram a fazer esse combinado. Verdade que na imensa maioria saiu o rosbife, entrou o presunto. E o pepino sumiu.

Digo história oficial, pois há outra versão. Mais proletária. Ela conta que o sanduíche teria sido inventado por um garçom do Ponto Chic, o Bauru, também ele nascido na cidade a 345 km de Sampa.

Convivem essas duas versões. Duas caras como a do próprio Largo do Paissandu. Duas caras como a do próprio Brasil. Uma de um representante da elite, futuro advogado. Outra, de um representante do trabalho duro e mal remunerado. Ao fim, nós os brasileiros, somos um sanduíche!

Leia também a história de um bordel em Bauru


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6 respostas para “Ponto chique do bauru no Paissandu”

  1. Malu disse:

    Que boa pedida Fernanda! Sanduíche com história! Fui muito lá! Adorei!

  2. Jeronimo Pompeu de Souza disse:

    Bauru legítimo é uma delícia. Experimentem e não vão se arrepender.

  3. Cristina Gonçalves disse:

    Essa é a história mais saborosa que você contou!

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