Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella e eu, 2006. Foto Régine Ferrandis Mãe Stella e eu, 2006. Foto Régine Ferrandis

Todo mundo tem o seu orixá, até o Papa

Bem que tentaram, por séculos a fio, aniquilar a religiosidade africana. Durante a escravidão, o catolicismo dos brancos foi um morde e assopra. Depois de suplícios e chibatadas, eram distribuídos terços e sermões. Mesmo após a Abolição, e na maior parte do século 20, o candomblé foi continuamente perseguido. Desqualificado, era chamado de seita ou de idolatria. Discriminado, era caso de polícia. Para soar os atabaques só com permissão do delegado.

Mas esse esforço de etnocídio em nada resultou. Os terreiros de candomblé entram no terceiro milênio vivíssimos. Sendo que alguns deles são verdadeiras escolas de cidadania, onde se praticam a iniciação ao mundo dos orixás e a educação para a vida. Tal exemplo de resistência e de transformação se deve principalmente às ialorixás – mães-de-santo –, responsáveis pela governança das casas de culto e pela orientação espiritual de filhos e filhas de santo.

Entre elas, com merecida reverência, está Mãe Stella de Oxóssi. Nascida em Salvador, Bahia. Aliás, três foram os seus nascimentos. O primeiro, em 1925, dentro de uma família de classe média, com o nome de Maria Stella de Azevedo Santos. O segundo, aos 13 anos, quando foi iniciada no candomblé pela lendária Mãe Senhora. O terceiro ocorreu, em 1976, quando os búzios decidiram que ela se tornaria ialorixá. Fui escolhida pelos orixás, vivo em função deles. Sou uma religiosa.

O orixá de Mãe Stella é Oxóssi, o caçador. O terreiro, onde para entrar é preciso pedir licença a ela, é o Ilê Axé Opô Afonjá. Ele é um dos maiores e mais prestigiados do Brasil. Fundado em 1910 por Mãe Aninha, foi tombado pelo Ministério da Cultura, graças aos esforços de Mãe Stella. Ou seja, trata-se de patrimônio cultural-religioso dos brasileiros.

Justiça seja feita, o terreiro não é patrimônio exclusivo dos brasileiros. Pessoas de várias nacionalidades pedem licença à Mãe Stella para se iniciarem no candomblé. Ela sabe que na opinião e no sentimento dos orixás não existem desigualdades de raça, etnia, classe social, gênero. Segundo eles, todo mundo é igual para baixo e para cima do umbigo. Ela também sabe que no dia a dia da sociedade brasileira as igualdades são uma piada.

Mesmo em Salvador, cidade com 80% de população negra, a hegemonia econômica e política é dos brancos. Basta um passeio pela cidade para perceber que algo está errado. As músicas, os batuques, os corpos, a culinária, o swing são negros. Os lucros dos negócios, as caixas-registradoras das lojas, os melhores endereços, as escolas mais eficientes, os bons empregos são, na sua maioria, da minoria branca.

Mãe Stella entende que está mais do que na hora de os negros cobrarem pelo seu valor, começando por exigir educação de qualidade e demais capitais de cidadania. Também sabe que é a hora exata de a população negra abandonar os folclorismos e os estereótipos da “baianidade” em troca da real apropriação da cultura afro-brasileira-baiana.

Além de líder espiritual, é líder política da comunidade. Não titubeou em abrir as portas do Terreiro para abrigar seminários preparatórios da Conferência Mundial contra o Racismo da ONU (Durban, 2001). Também não se furta a participar de congressos, seminários, reuniões internacionais quando o assunto é cultura e religiosidade afros.

Ela afirma que o candomblé sempre foi um movimento em prol do cidadão negro. Candomblé e negritude se alimentam um ao outro e dão, entre os frutos, boa autoestima e horizontes. No Ilê Axé Opô Afonjá, funciona uma escola de ensino fundamental para crianças da comunidade, onde o iorubá é idioma obrigatório. Funciona um museu, onde a história dos orixás é contada em toda sua complexidade. Também há oficinas de artesanatos para geração de renda, negócio tocado pelas famílias pobres que moram no terreiro.

A mais fiel imagem para descrever essa ialorixá é a do bambu – firme e flexível ao mesmo tempo. Sou flexível, porque tenho que ser firme na defesa de nossas tradições. Ela pediu emprestados o arco e a flecha de Oxóssi e foi desbravando as veredas. Hoje Mãe Stella estampa a síntese entre renúncia e determinação. Para assumir as responsabilidades de líder religiosa deixou a enfermagem e desfez um casamento. Nos desafios da vida, a pessoa entra inteira ou não entra.

Mãe Stella de Oxóssi é mantenedora do candomblé de pura cepa. Sem mistura. Sem concessões. Ela compreende que o sincretismo foi necessário para enfrentar a perseguição do catolicismo aos cultos africanos. Foi uma maneira de camuflar os orixás sob os mantos dos santos. Mas isso é passado.

A autora do livro Meu Tempo é Agora (1993), e doutora honoris causa da Universidade Federal da Bahia, entre outros títulos, gosta de dizer em alto e bom som: Iansã não é Santa Bárbara, Oxum não é Nossa Senhora da Conceição. Para ela, manter vivas a tradição e a especificidade de cada religião é o autêntico ecumenismo. O resto, incluindo a famosa fitinha do Senhor do Bonfim, é vitrine para turista ver.

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Brinde


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2 respostas para “Mãe Stella de Oxóssi”

  1. […] Sua expertise é a questão racial no país. Também é grande conhecedora da cultura e religiosidade afro-brasileiras. É uma das fundadoras do Geledés – Instituto da Mulher Negra, tradicional ONG de ativistas […]

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