Glossário do Golpe

Um primeiro de abril que não foi brincadeira

Arte Angela Mattos Arte Angela Mattos

Neste Glossário do Golpe temos alguns momentos-chave dos anos autoritários, inaugurados pelo Golpe Militar de 1964. Algumas marcas seguem nos assombrando.

AS ÁRVORES
1964 – Um golpe militar interrompe a vida democrática brasileira. O presidente da República João Goulart é deposto. O marechal Castelo Branco assume o comando do país. Começam perseguições, demissões, prisões e cassações de direitos políticos. Criação do Serviço Nacional de Informação (SNI), espécie de polícia secreta dos militares.

1967 – É editada a Lei de Imprensa estabelecendo a censura prévia nos meios de comunicação. Qualquer assunto poderia ser proibido. Logo depois, surge a figura do censor, personagem enfurnado nas redações. Muitos cumpriam um duplo papel: tesourar matérias e dedurar profissionais da comunicação.

1968 – Março: Para reprimir uma reunião preparatória de uma passeata, a polícia invade o restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro. O estudante secundarista, de 17 anos, Edson Luís Lima Souto é morto com um tiro no coração. Este assassinato causa indignação e expressiva mobilização de parte da sociedade contra o arbítrio.

1968 – Dezembro: O governo militar decreta o AI-5, o mais autoritário dos atos institucionais. Nele, o Presidente da República, na figura de Costa e Silva, passa a ter poderes de tirano. Pode fechar o Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores. Pode também intervir nos estados e nos municípios. O AI-5 também deu aos militares o poder de cassar direitos políticos por dez anos, e suspender o habeas corpus de presos políticos. Vigorou por dez anos.

1969 – Em uma emboscada policial, é assassinado Carlos Marighella, considerado o inimigo número um da ditadura militar. Com 57 anos, Marighela era o dirigente nacional da Ação Libertadora Nacional – ALN, organização adepta à luta armada contra a ditadura e pelo socialismo.

1971 – Prisão e  desaparecimento do ex-deputado federal Rubens Paiva. Seu corpo nunca foi encontrado.

1977  – O coronel Erasmo Dias, então secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo, comanda uma selvagem invasão à PUC (Pontifícia Universidade Católica). Prendeu dois mil estudantes. Três moças tiveram queimaduras graves em decorrência de bombas de “efeito moral”. Os estudantes estavam reunidos para comemorar a realização do III Encontro Nacional dos Estudantes.

1979 – A Lei de Anistia é promulgada. Exilados puderam voltar ao Brasil; demitidos por motivos políticos retornaram ao trabalho; direitos políticos cassados foram restituídos. No entanto, nenhum torturador ou mandante de tortura foi punido.

1984 – Eclode um grande movimento de massa reivindicando eleições livres para presidente. O movimento ficou conhecido como “Diretas Já”. Apesar da forte mobilização, o Brasil esperaria mais cinco anos para eleger, pelo voto direto, o presidente da República.

1988 – É promulgada a atual Constituição Federal, conhecida como a Constituição Cidadã. Ela foi fruto de intensa mobilização de vários setores da sociedade brasileira, entre eles, o movimento de mulheres e o movimento negro.

1990 – Abertura da vala clandestina no cemitério Dom Bosco, localizado em Perus, periferia de São Paulo. Foram encontradas 1049 ossadas de indigentes, de vítimas dos esquadrões da morte e de desaparecidos políticos.

1995 – Nasce a internet comercial no Brasil. Antes, sua utilização era bem restrita. Com o surgimento de provedores ponto com, o número de usuários cresceu como uma bola de neve. A internet (teia global) está entre as maiores revoluções tecnológicas que a humanidade experimentou.

A FLORESTA
Contradições
O pensamento de esquerda, traduzido em um ideal de justiça e bem-estar para todos, nem sempre materializou-se no dia a dia. Muitos militantes de esquerda foram de um machismo de direita e um racismo convencional.

Corrupção
Esta praga acompanhou toda a história do Brasil. Durante os governos militares, era moeda corrente, principalmente, por conta da total falta de transparência dos organismos estatais. Infelizmente, a queda da ditadura não resultou no fim da corrupção. Como cidadãos e cidadãs, ainda estamos longe de termos ferramentas de monitoramento e fiscalização das ações e dos gastos estatais.

Desaparecidos políticos
Pessoas que foram mortas, por torturas ou execuções, e tiveram seus corpos ocultados pelos órgãos de repressão da ditadura militar.

Desmemorização
A censura às informações e à expressão do pensamento, entre outros danos, deixou para as gerações posteriores a ocultação de realidades históricas.

Entrelinhas
Jornalistas, letristas, dramaturgos, escritores, ilustradores, chargistas  desenvolveram, durante os longos anos ditatoriais, maneiras de se expressar nas entrelinhas. Foram anos de cultivo de metáforas, meias palavras, duplos sentidos.

Exilados
A maioria dos exilados brasileiros, durante a ditadura militar, deixaram o Brasil para não serem presos. O número de exilados aumentou muitíssimo após a decretação do AI-5 – o máximo do autoritarismo. Entre os exilados, havia políticos, artistas famosos, professores, estudantes. O exílio, na maior parte dos casos, atingiu também os familiares. Ana Montenegro (1915-2006), exilada por mais de 20 anos, escreveu: O exílio é um espaço vazio, o exilado não o pode povoar nem de pedras, nem de casas, nem de céu, porque é um espaço vazio de lembranças.

Explosão de democracia
Duas datas disputam o término da ditadura militar nascida com a quartelada de primeiro de abril de 1964. Há quem prefira o ano de 1985, quando da eleição de Tancredo Neves para presidente da República. Outros apontam o ano de 1988, quando da promulgação da Constituição Cidadã. O fato é que, a partir década de 1980, o Brasil volta a saborear o gosto das liberdades democráticas. Surgem partidos políticos, grupos feministas, movimentos anti-racistas, movimentos gays, movimentos ecológicos. Também proliferam as organizações não governamentais (ONGs).

Guerrilha Tropical
A Guerrilha do Araguaia, (1972-1974), no sul do Pará, reuniu grupos de esquerda que pegaram em armas para derrotar a ditadura militar. A idéia era contagiar os camponeses para a revolução. Sofreu uma repressão brutal. Quase metade dos desaparecidos políticos brasileiros foram sequestrados e mortos nesta região.

Mascarados
Sempre existiram aqueles que arranjam expedientes para levar “vantagem em tudo”. Após a ditadura, muitos defensores do arbítrio passaram a pousar de defensores incondicionais da democracia. Assim como, alguns simpatizantes da esquerda bandearam para posições retrógradas.

Militares também foram perseguidos
Centenas doe militares se rebelaram contra o Golpe de 1964. Muitos foram afastados da “ativa”, outros foram presos. Entre eles, o mais famoso foi o capitão do exército Carlos Lamarca. Adepto da guerrilha, foi assassinado, em 1971, no sertão da Bahia.

Movimento pelo Perdão Político
Nos anos 70, no auge da repressão política, setores da sociedade civil começaram a acalentar a bandeira da Anistia Ampla Geral e Irrestrita. De importância fundamental foi a criação do Movimento Feminino pela Anistia, por iniciativa de Therezinha Zerbini, Helena Greco e de outras valorosas mulheres.

Organizações populares
No período pós-anistia , a partir de 1979, a democracia brasileira volta a respirar. O compasso desta respiração é traduzido pela criação de centrais sindicais e de novos partidos. Também explode o número de organizações populares, de mulheres e de negros.

Operação Condor
Deflagrada nos anos 70, a Operação Condor foi a articulação das ditaduras de Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia para reprimir seus adversários políticos, onde eles estivessem. Desrespeitando os direitos humanos e o Direito Internacional, pessoas eram presas, torturadas e “desaparecidas”, independentemente de suas nacionalidades.

Operário Padrão
Criado em 1956, o Prêmio Operário Padrão foi bem divulgado pela ditadura na tentativa de contrapor mérito individual à organização sindical.

O pior da época
Durante os longos anos sob a ditadura, desenvolveu-se um autoritarismo difuso. Uma cultura do cala-boca que atingiu a todo mundo. Também cresceu a prática da deduragem, por covardia ou para levar vantagens.

Os ditadores
Castelo Branco; Costa e Silva; Garrastazu Médici; Ernesto Geisel; João Figueiredo.

Conheça a série 1964


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12 respostas para “Glossário do Golpe”

  1. Pepeu andrade disse:

    Triste

  2. […] exatos 53 anos, o Brasil engatinhou ditadura. Essa época entrou para a história como Golpe Militar de 1964. Por mais de duas décadas, o mando da República esteve à força não de projetos e […]

  3. […] Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário da missa para Vladimir Herzog. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista. Na verdade, o ato era bem mais do que isso. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar. […]

  4. […] do antigo e famigerado Dops – Departamento de Ordem Política e Social, órgão máximo dos anos de chumbo. O assunto é a abertura dos arquivos da ditadura e o direito à memória política. Quando eu […]

  5. […] inventou o mouse. Em 1968, enquanto Paris ardia nas mãos da juventude e o Brasil esfriava com o AI-5, Engelbart apresentava seu invento em uma conferência em San Francisco. Era a estreia do ratinho […]

  6. […] carreira de professor internacional deslanchou a partir do exílio. Por conta do golpe militar de 1964, Milton foi destituído do cargo de secretário do estado da Bahia e demitido da Universidade […]

  7. […] públicos. Fomos presos algumas vezes. Levamos jatos d’água. Encaramos brucutus. Tudo pelo Abaixo Ditadura! Tudo pelas Liberdades […]

  8. […] vivido numa boa no Brasil comandando por seus colegas de farda. No entanto por não concordar com a ditadura, nem com o capitalismo, tramou um assalto de armamentos no quartel de Quitaúna, Osasco, São […]

  9. […] uma adolescente embriagada por todos os sonhos do varejo e do atacado. A derrubada da ditadura, à luz da minha inocência, estava na virada da esquina, ao alcance do […]

  10. […] dos caras que mataram Carlos Marighella (1911-1969). O assassinado, todos sabemos, foi tachado pela ditadura como seu inimigo número […]

  11. […] que poucas pessoas compareceram a essas discussões. A época não ajudava, estávamos no auge da repressão política no país. Também havia o estranhamento com um grupo de negros promovendo alta […]

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