Taubaté

Todo começo é uma promessa

Ela e ela. Arquivo pessoal Ela e ela. Arquivo pessoal

São os anos 1952. Ela tem 19 anos. Casou-se, faz um mês, no Rio de Janeiro. Disse o sim, feliz, por amá-lo e para livrar-se de viver com a família. Cansara-se das regras, da indiferença. Também não suportava mais a mesma sopa servida, todas as noites, na mesa comprida com tantos seus. Mas a grande emoção, embora ela não nomeie, é a de construir daqui para frente uma vida sua com ele. Onde? Em Taubaté.

Acabados os setes dias de lua de mel, ele partiu na frente dela. Ela ficou ajeitando suas poucas coisas e contando na alma o morrer das horas. Agora, resfolegando, o trem vindo da Central do Brasil  vai parando na plataforma, parou! Ela desce para encontrar a cidade de interior na qual os dois, mais do que morar, vão começar suas vidas mãos dadas. Ela não conjuga o verbo sonhar, pois esta manhã é o substantivo sonho.

Ele tem dois anos a mais do que ela. Foi aprovado no concurso do Banco do Brasil e procurou, no mapa das agências, uma cidade pequena com aluguéis baratos e onde pudesse se locomover de bicicleta. Não apenas por um ou dois quarteirões, mas sair de casa para o banco, deixar o banco para casa, pedalando. Taubaté.

Ele está completamente apaixonado, morto de tesão e de vontade de consubstanciar um mundo com ela. Ontem, ele pediu licença para não trabalhar hoje. Dormiu encantado, embalando-se na imagem de encontrá-la logo cedo na Estação de Trem e, por fim, mostrar a casinha onde eles se deitariam, todas as noites, enlaçadinhos. Só tinha mesmo a cama, porque o resto dos móveis seria ela quem escolheria. Com tanto que fossem baratinhos, ele deixaria claro.

Quando os dois se conheceram, ela tinha 13 e ele 15. Aconteceu assim: ela ficava à janela vendo a rua Barão de Mesquita passar. Eram frequentes os bondes e difíceis os carros. Então ela fazia um jogo com a irmã, contavam o número de fords que despontavam na esquina. O jogo era isso, nada além. Um dia, ela o viu passar, garboso, em seu uniforme de aluno do Colégio Militar.

E os olhos dela e dele se tocaram, do jeitinho em que os olhos de futuros amantes se tocam nos filmes, inexoravelmente. Ele piscou um olho, ela abaixou os seus, depois levantou-os e ele acha que ela sorriu. Por fim se falaram e marcaram um encontro na Confeitaria Colombo, onde dividiram um doce e a primeira briga: ela queria coca-cola, ele afirmava que o refrigerante era veneno dos americanos.

Depois vieram o namoro, o noivado e, por fim, mês passado, o casamento. Assim simples numa igreja da Tijuca, na saída os familiares atiraram arroz, sobre eles, para que tudo desse em muitos filhos.

O trem adiantou-se quinze minutos, por isso ele não está esperando na Estação. Ela, então, transpõe o portão de ferro para dar uma espiadela na Taubaté que, a partir de hoje, será sua. E depara-se com um bosque em frente. O Bosque da Estação que, anos depois, viraria Praça e, nos dias que correm, é um simples Largo, com sete ou oito árvores enfileiradas, cercado de trânsito por todos os lados.

Mas nesta manhã de 1952, todavia, é um bosque. Ela caminha, abrindo o nariz para os cheiros requintados que vêm das diferentes flores e esforça-se para reter estes cheiros na memória. De alguma maneira, ela sabia que eles representavam a divisa entre sua vida passada e toda a vida futura que, afinal, ela inaugurava nesta manhã. Os cheiros compunham a fragrância do que ela nomeava como sua liberdade.

Agora não precisaria dizer: sim mãe; sim, pai. Também não carecia mais fazer a cada noite e desfazer a cada manhã sua cama no corredor da casa. Ela teria um quarto todo seu, junto com ele. Mais ainda: uma sala, uma cozinha, um banheiro e, na carta ele descrevera, um quintalzinho com pés de chuchu. Ela estava passando do estado de liberdade para o da felicidade.

O relógio da Matriz badalou a hora redonda fazendo com que ele pedalasse com mais força. Ia tão ligeiro quanto ligeiras eram as batidas do seu coração, ela já chegou, já chegou! Ele antecipava o abraço apertado que daria nela, depois a apresentação da casinha que, sem dúvida, ela ira amar, porque tudo, o chão, as paredes, as janelas e as duas portas eram deles, só.

E ao meio-dia, iriam comer o almoço caseiro na pensão da Dona Flora, e teriam toda tarde e a enorme noite. Ah, sim, havia o rio, o Paraíba do Sul, que iriam visitar; ela na garupa da bicicleta, ele no comando. Tudo estava copiando o planejado: o emprego no Banco do Brasil, a bicicleta caloi, a casinha, os móveis a serem comprados, os sábados e os domingos a serem inventados conforme desse na telha dos dois.

Dos cheiros das flores, ela passou a observar a forma das árvores, das raízes às copas, grandes, velhas, sólidas. E lembrou-se da fábrica de vidros que funcionava na esquina da casa dos pais. Ela, pequena, ficava na ponta dos pés para observar, furtiva, o vidro sendo criado, hipnotizava-se com as formas e as cores. Era o que encontrava, hoje, no Bosque da Estação: formas e cores, só que de maneira maravilhosa.

Por instantes, imaginou os delicados objetos com que decoraria sua casinha. Ela sabia que ele não ligava para isso, porque os homens fingem que não gostam das coisas femininas, mas e daí?

Foi então que virando o rosto, avistou, na rua ao lado do Bosque, um ponto de táxi. Era diferente dos pontos do Rio de Janeiro: no lugar dos carros, estavam charretes puxadas por burros. Meu Deus, que atraso é esse?, ela pensou. Mas esse pensamento não nublou em nada sua felicidade. Ao contrário, o pensamento explicitou em seu rosto um delicioso sorriso. Ele deve estar chegando, chegando.

Ele olhou de um lado para o outro na plataforma. Ninguém. Parecia que nunca nenhum trem tinha passado por lá. Correu ao guichê e inquiriu um sonolento funcionário que avisou que o trem, vindo do Rio, havia partido fazia tempo. Ele perguntou se o outro não tinha reparado descer uma mocinha. O funcionário respondeu taxativo: Só desceram três velhas e já se foram.

Ele sentiu uma onda elétrica machucar seu corpo. O que teria dado errado? Ela não viera. Mas, ontem, ao telefone, tudo estava certo. Preto no branco. Uma força o impeliu para fora da Estação, suas pernas pareciam ter ganho asas.

Então ele a viu saindo do Bosque, ela o viu saindo da Estação. Foram dois olhares ao mesmo tempo, no mesmo espaço. Correram um para o outro, se beijaram ali mesmo no meio da rua. Daí ele montou na bicicleta e ela na garupa. Ele disse para ela passar os braços, com força, em volta da cintura dele. E partiram. A bicicleta dobrou a esquina do Bosque e fugiu. Para onde? Ora, para uma vida inteira.

cidade de Taubaté

Taubaté. Foto enviada por Regina Palombo.

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8 respostas para “Taubaté”

  1. Pepeu disse:

    Minha mãe amava de verdade .

  2. Silvana Moura Moura disse:

    Maravilhoso.Adoro ir imaginando tudo o que escreve! Quase pude sentir o cheiro do bosque e a ansiedade dos dois.
    Linda essa construção da vida!

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Silvana, também adoro este texto. Meu pai, um pouco antes de morrer, teve a oportunidade de lê-lo. Ele gostou. Isso me deixou comovida. Beijo e feliz páscoa.

  3. julio cesar santos poyares disse:

    muito lindo fernanda.

  4. maria angelica lemos disse:

    que lindeza! eu ia lendo e vendo o filme, emocionada.

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