Rosa é luta

A luta internacional das mulheres

Ericah Azeviche. Foto Camila Loreta Ericah Azeviche. Foto Camila Loreta

Houve um tempo em que mulheres eram educadas para desconfiarem de outras mulheres. Enquanto fossem solteiras tudo bem ter amigas. Mas a partir do momento em que uma se casasse seria prudente tomar cuidado com a outra. Pois a amiga, em ato de traição, poderia roubar o bem mais precioso: o marido.

No entanto, muita água rolou debaixo da ponte e das saias. As mulheres foram perdendo o status único de esposas. Os homens, o status único de provedores. E chegamos onde estamos: cada vez mais mulheres provedoras, mais mulheres chefes de família e delas mesmas.

Por que será que as mulheres se tornaram solidárias entre si? Sem dúvida são muitas as respostas, mas uma delas reside na compreensão de um passado histórico comum, de um presente cheio de aproximações e de um futuro com sonhos compartilhados.

O passado comum diz respeito a uma série de interdições e limites claramente demarcados. Cabia às mulheres obedecer a um conjunto de regras – inventado pelos homens – que começava a ser aprendido na infância e finalizava na hora da morte, amém.

Entre essas regras, a mais cruel era a proibição da autodeterminação. Mulheres teriam suas vidas tuteladas sempre por um homem, fosse ele pai, tio, irmão, primo, marido, bispo. Para aquelas que não contassem com o guarda-chuva masculino, garantia-se um destino amargo. Mesmo as prostitutas gravitavam em torno da gerência dos cafetões.

Conclusão: as mulheres não existiam por si próprias. É claro que sempre houve as que se rebelaram, as que puseram a cara para bater ou para receber o cuspe. Muitas pagaram a rebeldia com a fome e a indigência, outras arderam nas fogueiras pelo crime de desobediência.

No correr do século 20, algumas mulheres perceberam que lutar individualmente não era suficiente e formaram os primeiros grupos e associações de mulheres. Ufa! A solidariedade de gênero começava a funcionar.

As feministas foram o bloco abre-alas do movimento de mulheres. Elas reivindicaram o direito das meninas ao ensino fundamental, o das moças a universidades. Batalharam para que todas pudessem exercer o direito básico da democracia: votar e ser votada.

Sofreram toda ordem de discriminação e de chacotas, sim a difamação já existia bem antes da redes sociais. Feministas acabaram conseguindo, passo a passo, discurso a discurso, o passaporte das mulheres para a cidadania.

A base do movimento de mulheres foi e sempre será a solidariedade de gênero. Não estamos falando de uma solidariedade localizada geográfica ou circunstancialmente. Estamos falando de uma solidariedade internacional e permanente. Não poderia ser de outro modo.

Vamos pegar, por exemplo, a chamada violência de gênero – que nada mais é do que a violência do homem e do Estado contra a mulher. Sabemos que basta nascer mulher para ingressar no grupo de risco da violência.

Misoginia e o machismo não distinguem cor de pele, classe social, renda socioeconômica, nacionalidade. Simplesmente atacam. A ameaça da violência e a luta contra ela unem mulheres do mundo todo.

Foi em torno da denúncia da violência de gênero que a solidariedade entre as mulheres teve uma de suas mais importantes manifestações. O que era relatado em termos de maus-tratos e humilhações não soava indiferente a nenhuma mulher.

Todas tinham uma história de violência para contar que, se não fosse pessoal, era a história da mãe, da tia, da irmã, da amiga, da vizinha. Foi em torno dessa denúncia que a expressão nós, as mulheres adquiriu força coletiva.

A solidariedade concretizou-se na criação de grupos, associações, redes, ONGs que lutaram e lutam pela sobrevivência, pela qualidade de vida, por um planeta sustentável.

Os trabalhos coletivos pela criação de creches, pelo acesso aos serviços de saúde, pelo saneamento básico, pelas panelas cheias, pela moradia entraram definitivamente na agenda das lutas sociais. Todas essas demandas estão povoadas por mulheres.

Delas participam as Marias do Socorro, do Carmo, da Conceição, da Aparecida, das Dores, da Anunciação, de Fátima, da Liberdade. E também as Anas, Denises, Luísas, Marisas, Veras e todos os nomes femininos de A a Z.

Como parte do processo de conscientizar-se, as mulheres perceberam que suas necessidades não eram apenas gerais. Não era suficiente apenas lutar por creche para os filhos e comida para toda a família. Era também preciso lutar em causa própria.

Conquistar os direitos sexuais e reprodutivos, o direito a amar sem discriminação de raça, idade ou preferência. E, fundamentalmente, era urgente conquistar o direito da diferença sem desigualdade.

Nosso corpo nos pertence e Uma vida sem violência é um direito nosso passaram a simbolizar reivindicações específicas do gênero feminino. Junto com essas reivindicações, formaram-se redes de solidariedade internacional.

Por exemplo, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), organizada pelas Nações Unidas, não abrange apenas as mulheres de um país, ou de uma outra região, abrange as mulheres do mundo inteiro.

Para alcançar a diferença sem desigualdade foi e segue sendo necessário organizar-se não apenas pelo direito ao trabalho, mas por melhores remunerações. Outro slogan poderoso: Salários iguais para trabalhos iguais. Em suma, acesso a uma vida, de fato, sustentável.

Todas essas lutas estão narradas no passado porque já foram iniciadas, mas todas elas estão vivas no presente e sedentas de vitórias concretas. São lutas concomitantes, ao mesmo tempo em que se luta contra a fome, contra a feminização da pobreza, as mulheres lutam por igualdade de oportunidades, por melhor capacitação e por representatividade política.

As mulheres, com suas redes de solidariedade, também estão na base e na ponta do clamor pela paz. Paz no mundo, na região, no país, na comunidade, na casa. O clamor pela paz é o desenho de uma nova lógica que troque o campo de batalha pela mesa de negociações, que substitua armas por ferramentas de produção.

Um assunto da passando da hora para o movimento de mulheres, particularmente no nosso país, diz respeito ao racismo e suas consequentes discriminações. Mais uma vez caberá ao gênero feminino colocar o dedo na ferida e procurar o remédio.

As oportunidades conquistadas, pelas mulheres, no Brasil, não se dividem equitativamente entre brancas e negras. Ao contrário, as mulheres negras seguem em desvantagem em todos os níveis: econômicos, educacionais, profissionais.

Os números costumam ocultar diferenças entre brancas e negras ao juntar todas na denominação mulheres brasileiras. Mas basta separá-las para nos depararmos com chocante desnível.

Portanto, este é um velho-novo desafio para o movimento de mulheres: admitir o racismo e lutar pela erradicação da discriminação racial e pela condenação social de todas as formas de intolerância.

haverá um mundo justo para as mulheres e para os homens, se for um mundo de diálogo entre as diferenças, um mundo que enfrente humanamente problemas reais de pessoas reais. Para conquistar tudo isso, no centro da questão, está a solidariedade traduzida como ação.

Ouça Maria, Maria:


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7 respostas para “Rosa é luta”

  1. Marisa Paifer disse:

    Custa a crer o tamanho de todas as conquistas, pelas mulheres que nos precederam, mas ainda há muita batalha pra todas nós ainda hoje. Obrigada pela analise que nos homenageia!

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Isso sempre me impressiona. Tantas conquistas e ao mesmo tempo tanto a conquistar! Hoje mesmo escutei um cara se referindo a um desafeto dele: “Fulana é uma vagabunda”! Incrível a facilidade com que as mulheres são chamadas de vagabundas e vacas. Muito caminho a caminhar, querida Marisa. Beijo.

  2. Lucilene Antunes disse:

    Parabéns pelo artigo. Ainda temos muito a conquistar. A mulher ainda carrega no inconsciente um fardo de culpa e responsabilidade total pela casa, pelos filhos e chega ao absurdo de se acharem responsável pelo bem estar do homem.

  3. Fernanda, excelente artigo, avançamos muito, mas creio que ainda temos muito a avançar. O preconceito, tanto por parte dos homens quanto das próprias mulheres, ainda existe em vários nichos. A maneiro como criamos nossos filhos é fundamental para constatarmos, em uma nova geração, o movimento em direção à igualdade. Somos todos parte desse dinâmico processo de desenvolvimento das relações humanas. Vamos em frente, beijo grande!

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Cristina! Bela surpresa o seu comentário! É fato: somos o que somos porque teve gente agindo atrás de nós. Da mesma forma que tem gente a nossa frente também agindo e nos ensinando. Buscar a igualdade entre gêneros é aprendizagem sem fim. Muita obrigada pela leitura. Grande beijo.

  4. […] prefeitura, cercou-se de mulheres em funções-chave. Foram várias secretárias e coordenadoras. Sua recomendação para as […]

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