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Hoje as barcas que fazem a travessia Rio-Niterói, pela esplêndida baía de Guanabara, têm pouco a ver com as embarcações de quarenta anos atrás. As atuais…

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Hoje as barcas que fazem a travessia Rio-Niterói, pela esplêndida baía de Guanabara, têm pouco a ver com as embarcações de quarenta anos atrás. As atuais são mais confortáveis, ligeiras. Algumas têm até serviço de café expresso com bolinhos de chuva.

As que eu carrego na memória tinham bancos de madeira, rangiam como violinos mal tocados. De alguma forma eram mais primitivas ou mais selvagens. É claro, o serviço então não tinha concorrência (a vantagem do negócio para o consumidor), pois não existia a ponte de 13 km de bom asfalto ligando a cidade maravilhosa à terra do Arariboia.

O fato é que fiz a travessia Rio-Niterói por um ano ininterrupto. Era 1970. O Brasil fechado. Falava-se baixo, escrevia-se e lia-se por metáforas e entrelinhas. Comungavam-se um temor tremendo dos militares, da polícia, do Estado. Os que não liam nada, pouco temiam e viviam numa quase total ignorância política e de direitos.

De maneira que os quase trinta minutos gastos na travessia eram uma espécie de tempo liberto. Uma forma de suspensão, quando a vista se deliciava com a beleza da paisagem e as narinas se embebiam de maresia. A baía de Guanabara é uma epifania geográfica.

Havia liberdade naquelas barcas, como território à parte. Também tinha algo da alma suburbana que, excluída das benesses, se sente mais solta das formalidades. Quero dizer: os passageiros falavam alto e se expressavam com espontaneidade.

Me recordo de um dia de nevoeiro cerrado. O piloto perdeu o rumo. A barca ficou fazendo círculos, adiando a ancoragem. Pois uma senhora começou a gritar: Estamos sendo sequestrados para Cuba! O pânico dessa senhora tinha a ver com notícias de sequestros de aviões manchetados nas mídias da época.

Também assisti à cena de um suicídio por pouco. O homem se jogou nas águas da Guanabara. Correria. O marinheiro salva-vidas nervoso atirou uma boia e o homem a agarrou sofregamente. Foi resgatado. Nos meus quatorze anos, senti uma esperança tremenda.

O episódio mais saboroso, do qual me recordei muitas vezes nesses quarenta e poucos anos, foi protagonizado pelo locutor da barca. No momento em que ela atracava, ele pelo alto-falante avisava: Senhores passageiros, desembarquem com segurança e não esqueçam seus pertences no interior desta barca. Era sempre  mesma frase, mesma entonação. Acho que como as comissárias fazem nos aviões, o locutor lia o texto num papelzinho plastificado.

Mas daí um dia aconteceu. O locutor mandou: Senhores passageiros, desembarquem com segurança e não esqueçam seus problemas no interior desta barca. A gargalhada veio imediata e coletiva. Um uníssono de centenas de gargantas. Simples e inesquecível.


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Uma resposta para “rio-niterói”

  1. […] Que me importava? Era a oportunidade eldorada. Peguei a barca Rio-Niterói, atravessei a deslumbrante Baía de Guanabara. Encontrei-me com o incrível Ernani na praça do […]

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