O que a gameleira viu

Marilda & Eu é uma seção experimental do Fernanda Pompeu Digital. Leia aqui o segundo texto da série. Desta vez, é Marilda Carvalho quem começa: Marilda…

Foto: Carlos Amorim Foto: Carlos Amorim

Marilda & Eu é uma seção experimental do Fernanda Pompeu Digital. Leia aqui o segundo texto da série. Desta vez, é Marilda Carvalho quem começa:

Marilda Carvalho
ga.me.lei.ra. árvore de grande porte, da família das Moráceas, produtora de madeira e frutos comestíveis que têm aplicação medicinal.

O que a gameleira viu no centro de Goiânia na Praça Universitária: os estudantes do IFG de Goiás, mais os estudantes de Artes Visuais, mais um grupo tocando percussão, mais uma garota com uma máscara branca pintando os colegas com aqueles dois traços verde-amarelos no rosto. Rodas alegres ensaiando palmas e versos. Tudo ia se aproximando de uma manifestação. Eu e minha colega já víamos os cinco carros de polícia estacionados mais para baixo e o de bombeiros na lateral.  A polícia sempre vem, inevitável. A batucada soava bem e o pessoal vestia confortável. Esmaltes azuis, cabelos roxos, carecas femininas, beijos. Uns cinco, seis e depois mais polícias vieram subindo e sem mais, com um bração esticado e um vem cá, vem agarraram uma menina que estava com uma bata e um capuz vermelho. Mas não deu, a moçada avançou neles com um Oooooooo geral e resgataram a amiga e namorada, já sem capuz. E revidaram: Não vai parar, não vai parar, vai acabar a polícia militar! Os homens começaram a voltear. Tem que ir pra rua, tem que ir pra rua, eu comecei a espalhar baixinho e sincopado. A polícia poderia cercar e cair de pau em todo mundo. Eles não têm experiência, pensei. Um pouco mais pra cima a faixa estendida e a linha de frente toda com os celulares prontos pras fotos. Enfrentava os polícias e seus celulares também armados. Puxei conversa com um policial mulato com ar mais simpático, apesar de estar todo estofado com sabe-se lá o que: O senhor estudou em escola pública ? … e então? Ele responde que o único problema é o capuz. É só isso. Virei pro outro lado e vi uma menina gritando com um policial: Então tira esse cano da minha cara! A gameleira viu a coragem dessa moçada. E eu, tive medo.

Fernanda Pompeu
Você acha que eu sinto prazer em estar aqui? No meio dessa estudantada rebelde? Olha aquele ali. Tem capuz e uma pedra na mão. Essa moçada acha que direito dá em árvore como manga. Pedem, pedem, pedem. Agora inventaram essa história de ninguém me representa. No fundo, acho que eles não levam a sério nenhuma autoridade. Mas está errado. Alguém precisa estar no comando. Não existe avião sem piloto, nem barco sem marinheiro. Faculdade tem que ter reitor. Tem que existir respeito. Eu fui criado pela minha avó. Sentia por ela  temor. Se fizesse coisa errada, ela me beliscava com as pontinhas do polegar e indicador. Vinha uma dor fininha. Dor doída. Mas eu não deixei de amá- la por causa disso. Existem o certo e o errado. Baderna não muda nada, só piora. Sabe, esses estudantes têm uma vida boa. Estão estudando não é? Minha avó era analfabeta. Com 7 anos ela segurava na enxada. Se ela estivesse aqui na faculdade, estaria agradecida de joelhos. Repara naquela menina ali desafiando a tropa. Você vai pôr tudo isso na TV?


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2 respostas para “O que a gameleira viu”

  1. Zé Mario disse:

    Adorei!!! :)

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