Minha amiga se matou

No mês de junho de 1986, minha amiga Fabíola Camargo se matou. Ela tinha 20 anos. Em meio a dor e ao espanto, escrevi o texto…

Fabíola Camargo, arquivo pessoal Fabíola Camargo, arquivo pessoal

No mês de junho de 1986, minha amiga Fabíola Camargo se matou. Ela tinha 20 anos. Em meio a dor e ao espanto, escrevi o texto que segue.

A descrença à frase que dizia a notícia. A mensagem sem ambiguidades ou figurado sentido. Tão só chegou e denotou. Mas como acreditar numa informação quando o cérebro – que é a central – se nega a ouvi-la? Como engolir os 300 litros de fel daquelas palavras?

foi desligar a TV, passar o café, menear o pensamento, depois do gole a suspensão do ser flutuando no vácuo da mensagem. Daí o choro explode nos olhos lágrimas feitas no umbigo da alma. Sibilos da ferida que se abre. Os lábios se enforcam numa vontade de não não não.

Sim sim sim, a veracidade da notícia é inquestionável. Não há enganos, designs, nuanças, pontos de vista. Sim, a verdade uma e cognoscível. Absoluta irreversível irretorquível. Quase física. Um mito em carne viva: quem olhar em seus olhos põe em risco o talento de ver, pois a dor cobra exclusividade dos sentidos.

A dor procura um álibi no jardim da pele e nada. Nem conhaque, sono, vigília atenuam o golpe da mensagem recebida. Se a vida fosse um Vídeo Home System, bastaria teclar o rew: o tempo recuaria e stop. Porém os destinos não são fitas magnéticas, cumprem órbitas neles mesmos.

Quando se trata de escapar ao canto das sereias, de seus belos lamentos, é possível tapar com cera os ouvidos, acorrentar braços, pernas, tronco no mastro do navio. É eficaz. No entanto, como escapar à verdade, como não ouvir o rumor de seu silêncio?

Como tapar os ouvidos ao deslizar do caixão? Ironia: ele desfila pelas mesmas ruas que faz vinte e nove horas você caminhava. Agora, a dor retarda os minutos da manhã, os relógios se congelam, o tempo se dilata no estupor sob um céu de sem-cerimônia azul.

Elegante e triste, como dobrando sinos, o caixão quebra esquinas que aguardam uma partida de futebol, daqui quatro horas o Brasil jogará com a Argélia, por isso estouram fogos por toda a cidade. A dimensão do plausível se tinge de um matiz surrealista, você morreu e tudo ao redor está vivendo.

Perplexidade, a perda é isto: algo que não encontraremos mais. Traição, a instantânea facilidade de referir-se a você no passado; entre o ser e o deixar de ser – um triz no tempo, relâmpago no espaço. A velha raposa, o nada. Ou talvez, a doçura, a transcendência, a embriaguez cósmica: morte.

Intuir que, quiçá, a consciência finde suave e com a mesma bênção de quando surgiu. O caixão se inclina, último round, o caixão se entrega à terra. As alamedas do cemitério estão sitiadas.

fora, na rua da Consolação, o trânsito se excita em meio aos cacos urbanos, vulgaridades modernas, poliruídos. Os fogos pipocam, indiferentes. É Copa do Mundo.

A minha expressão com o seu suicídio é de derrota. Não posso fazer nada – nem guerra, nem poema – para trazê-la de volta. Você partiu, deixando o lápis sem a frase, a tinta sem a cor, o sono sem o sonho, o branco sobre o branco. Se foi, abrindo na normalidade uma janela para o abismo, desestabilizando as certezas que eu fingia ter.

Jorge Luís Borges, morto hoje mesmo, escreveu que Steiner dizia Quando alguma coisa acaba devemos pensar que algo começa. Eu vasculho um consolo, tento alcançar a moral da fábula, o motivo deste filme tristíssimo, uma lição que seja. Mas o esforço é vão.

Todos os nomes, interpretações, conjecturas soam como os gestos: inúteis, não há fundo nem forma. O espantalho Otimismo é atingido em cheio na nuca, os ventos do presente destelham telhados do futuro.

Você no caixão deixou sua amiga travada, sem palavras. Morrer é sair do mundo dos fatos e atribuir como herança, imagens. Já sei que viver é estar presa na masmorra da memória, atada às argolas das lembranças, ao ritmo das imagens. Compreendo que do berço à cova são as imagens o nosso duplo.

Recordo a primeira vez que a vi em frente ao mar do Atlântico, uma onda predizendo a outra em sucessão de ícones, sargaços, promessas, espumas. Você lia Se um Viajante numa Noite de Inverno, do Italo Calvino, quando pela transparência das lâminas de acrílico da veneziana percebi você.

Parei para melhor olhá-la caminhando a praia, entre você e o mar uma vaga análoga: sua juventude e o sem idade das águas, seu brilho e a ardentia, sua mortalidade e a eternidade oceânica. Reconheci na sua pessoa sinais que me fizeram retornar a mim: a vontade fazedora, certa inocência de alma e o ímpeto.

Serpentinas de luz no seu presente que haviam iluminado o meu passado. Eu prosa, você poesia. Então ficamos amigas. Nas idades, dez anos de diferença.

Agora: cindiu-se o compartilhado amor às palavras, o sextil de mercúrios, o dueto de gargalhadas. Sem minha  jovem amiga, fico esperando o cais na companhia de espantados navios, semelhando um grão de areia humilhado pelo infinito. Perdê-la foi pêsames à beleza de qualquer mar.

De repente, você paralisada me dizendo que a radicalidade não se constrói com palavras, sim com gestos. Dizendo que a subversão dos valores não é retórica, é iconoclástica. Você a caçadora de enigmas farejando, irônica, todos os signos. Proprietária de insights uranianos capaz de fazer ponteiros pularem para trás. Você morreu.

A dor desta verdade se expande pelos cantos, no assoalho, em baixo dos balcões, no papel que embrulha o pão, no medonho riso da realidade. Dor-serpente com o bote espreitando a mínima alegria.

Transito em meio ao lusco-fusco, meus olhos perscrutam o caminho sombreado por uma lágrima do sol. Creio num armistício. Desejo que a vida dê um tempo no fluxo das intensidades, suavize as contradições, se refugie na arte. Você sempre quis que a vida fosse o máximo de sensações, pool de significantes, a própria arte.

Meu Deus, você queria tudo! O artefato e o artesão, a sombra e a luz indistintas. O narguilé onde o tempo fuma as horas. Recebi muitos presentes seus: frases, livros, Vivaldis, canetinhas, minúcias de carinho.

Você ficou devendo, para ser pago na eternidade, uma viagem de trem pelos subúrbios, um pôr-de-sol sampalino visto do viaduto sobre a Sumaré. Promessas de futuro que, como cristal atraído pela rocha, se estilhaçaram.

A intensidade emocional deforma a percepção do espaço, distorce as formas visíveis, engendra arquiteturas imaginárias. Transforma o relógio público da Paulista num relógio mole de Salvador Dali.

No coração o peito late célere, nos neurônios o cérebro se impacienta. Afinal o que fica? A alma estacada no corpo pelo trágico? Você não responde, então desenho e pinto no chão da praça Vilaboim um arco-íris com as cores de sua juventude, para você olhar eternamente.

Tempoatividade, saudades por segundo, rotação de recuerdos, ausência evocando presença. O acordeão sendo tocado por mãos que não estão. Sonho que sonhei você. Sinais luminosos, sinais de vida? Imputs no painel central, os néons acendem sua bruma esverdeada sobre a cidade, tamanha luminosidade ofusca as estrelas.

Seu impulso de cessar foi a utopia de libertar-se do tempo? Atirar balaços contra todos os ponteiros, um coquetel molotov no cárcere de Greenwich.

O tempo inexaurível: a felicidade não retorna, são as famosas águas do rio de Heraclito que não passam uma segunda vez. Indiferente à perecibilidade dos seres, o relógio voa suas horas. Tempo, detenha-se! Mostre seu semblante, permita que nele se leia sua identidade. Diga de que matéria é feito.

Daguerreótipos, fitas magnéticas, celulóides, páginas impressas embaçam, apagam, esmaecem, amarelam. Mas enquanto eu viver (enquanto meus olhos andarem por aí) de uma maneira secretíssima algo de você viverá comigo.

Sair do vazio é esforçar-se tremendamente, salvar o fantasma na dobra do quarteirão. Apesar das evidências, do logicamente inútil, insisto em perguntar: Cadê você? Em que dimensão, estrela, rua seu sorriso se escondeu? O que aconteceu?

Você perdeu a condescendência com o mundo? Não teve paciência em domesticar as formas? Sentiu o “terror de ser”? Partiu-se o disco de Sting? Consumiu-se nas chamas do presente os brilhos do futuro?

Você, tal como Sierguei Iessienin, nos versos de Maiakovski, Com todo este talento para o impossível, hábil como poucos. Você urdindo uma poética do absoluto numa sintaxe do trágico, apagou a luz deixando de ver o que por ela é iluminado, mas será que por isso as coisas deixaram de existir?

Domingo, o relógio digita cinco horas e quarenta e cinco minutos da manhã, é outono. Eu quero que você volte, esfrego os olhos, aguardo o milagre. Mas você não virá.

Você pegou o revólver levou-o contra a cabeça apertou duas vezes o gatilho. Infinitando o inenarrável se lançou em supersônica velocidade para o amanhã.


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7 respostas para “Minha amiga se matou”

  1. Aparecida Ribeiro disse:

    Fernanda, obrigada pelo texto. Estou chorando agora, 4 anos após o suicídio de uma pessoa de apenas 16. Seu texto me calou fundo na alma, a dor e o questionamento do que eu podia ter feito, o que eu não fiz. Agora sei, não tenho que entender tenho que agradecer o tempo que convivi com ele
    Obrigada.

  2. Zé Mario Passos disse:

    Lindo, pra dizer o mínimo.

  3. […] outra postagem – também bem antiga – vivi uma experiência contrária. Relendo o texto Minha amiga se matou, percebi que não havia nada a mudar ou reparar.  A emoção escrita em 1986 não havia […]

  4. Cristina Andrade disse:

    É muito triste essa dor enorme de uma amiga jovem tirar a própria vida a dor da morte da separação do motivo da desistência da vida e você fica com a impressão que poderia ter feito alguma coisa ajudado de alguma maneira o vazio é triplicado por diversas vezes maior do que na morte natural o duro é a impressão que fica que você poderia ter ajudado de alguma maneira.

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