Esqueço não

Janaína de Almeida Teles, nascida em 1967, tem pedigree político. É filha de Amelinha e César Teles – dois ativistas pelos direitos humanos de longa viagem….

Janaína Teles. Arquivo pessoal Janaína Teles. Arquivo pessoal

Janaína de Almeida Teles, nascida em 1967, tem pedigree político. É filha de Amelinha e César Teles – dois ativistas pelos direitos humanos de longa viagem. Sobrinha da Criméia de Almeida, sobrevivente da Guerrilha do Araguaia. Irmã de Edson Teles, estudioso do período militar. Prima de João Carlos Grabois, o Joca, nascido na prisão. Historiadora e pesquisadora com livros publicados, Janaína dedica-se a procurar restos mortais dos desaparecidos políticos e a reconstituir possíveis últimos momentos de luta e de vida dos mortos e desaparecidos. Valente, ela e sua família denunciaram à justiça o torturador coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Podemos defini-la, também, como um misto de ativista e estudiosa da memória pública.

No ano de 1972 você tinha cinco anos e seu irmão quatro. Após prenderem seus pais, policiais levaram vocês dois para o DOI-CODI (um dos mais temíveis órgãos de tortura da ditadura militar), na rua Tutóia, São Paulo. De que você lembra?
Por conta da pouca idade, tenho lembranças fragmentadas. Mas o que recordo é muito nítido. Lembro de ver meus pais, Amelinha e César, terrivelmente machucados em uma cela. Achei esquisito porque eles não sorriram direito quando me viram. Eles estavam meio esverdeados. Eles abraçaram a mim e ao meu irmão, mas tinha algo desconjuntado no corpo deles. Anos mais tarde, minha mãe contou que fui levada para a sala onde ela estava sendo torturada. Ela estava amarrada na cadeira do dragão (cadeira de tortura onde a vítima recebe fortes choques elétricos). Felizmente não lembro dessa cena. Depois falaram para minha mãe que eu estava morta dentro do caixão.

Duas crianças pequenas no DOI-Codi. Quem ficava com vocês?
O mesmo casal de policiais que nos sequestrou. Quando eles chegaram em casa, eu estava vendo televisão. No DOI-Codi ficávamos bastante tempo dentro de um carro, no estacionamento. Lembro que ouvia gritos. À noite, éramos levados para uma casa grande. Recordo da cozinha, por exemplo. Já tentei localizar essa casa, mas não consigo.

Como foi a prisão dos seus pais?
Os dois eram ativistas políticos. Foram presos na rua, quando iam encontrar com outro militante. Caíram os três. Quando minha mãe chegou no DOI-Codi, falaram para ela: Bem-vinda ao inferno. Isso ocorreu na noite anterior ao nosso sequestro.

Como a repressão chegou em vocês?
Por azar, minha mãe estava com a carteira de trabalho na bolsa. No dia seguinte, policiais foram no emprego dela. Inventaram que minha avó estava morrendo e precisavam muito contatar a família. Conseguiram o endereço. Minha casa estava cheia de materiais comprometedores. Era lá que o jornal do Partido Comunista do Brasil (PC do B) era feito. Foi um prato cheio para eles.

Vocês estavam sozinhos na casa?
Por ironia do destino, minha tia Criméia havia chegado do Araguaia no dia anterior. Ela era militante da guerrilha. Mas como estava grávida de oito meses veio para São Paulo. Ela foi presa com a gente. A polícia demorou para descobrir quem era ela. Depois, ela teria o filho, meu primo Joca, na prisão.

Seus pais e sua tia ficaram presos e incomunicáveis. E vocês foram para onde?
Os agentes da repressão fuçaram e acabaram descobrindo que o marido da irmã do meu pai era um delegado de polícia. Portanto, colega. Ele morava em Belo Horizonte. Nos levaram para lá. Foi outro pesadelo. Esse tio era truculento. Eu e meu irmão fomos recebidos muito mal. A gente ficava num quarto fora da casa. Trancavam a porta com cadeado. Eu tinha que ajudar a empregada doméstica. Quando a gente importunava, o tio delegado falava que ia levar eu e meu irmão para ver os presos dentro das celas da delegacia. Ele dizia que os presos eram animais. Também forçava a gente a rezar todo dia. É claro que filhos de comunistas não sabíamos nenhuma reza.

Seus tios não falavam nada dos pais de vocês?
Da minha tia lembro muito pouco. O tal tio dizia que meus pais tinham nos abandonado. Um dia insisti: Quero minha mãe! Como resposta, ele pôs um revolver sobre a mesa, dizendo: Assunto encerrado. Nossa estada durou uns seis meses.

Como é que terminou?
Minha tia Criméia foi solta logo depois do nascimento do Joca. Ela não tinha nenhuma pista de onde estávamos. Foi para Belo Horizonte, onde morava uma parte da família. Um dia alguém comentou que os filhos do César e da Amelinha estavam morando com o tio delegado. Criméia deu um jeito de se aproximar, sem que esse tio soubesse. Tudo escondido. Ela encontrava com a gente em um jardim público. Ela pedia pelo amor de Deus que não comentássemos. Mas um dia, numa briga, eu falei: A nossa tia Criméia vai tirar a gente daqui. O tio delegado ficou furioso e as coisas se complicaram. Mas finalmente Criméia nos resgatou. Ela apareceu um dia em que os adultos não estavam na casa, pegou eu e meu irmão e embarcamos num ônibus para São Paulo.

Seus pais continuavam confinados?
Por muito tempo ainda. Do DOI-Codi eles foram para o presídio. Era tudo extremamente duro. Mas preciso dizer que essa história foi vivida por outras crianças. Outros filhos de presos políticos também foram obrigados a ver os pais sendo torturados. Teve, inclusive, crianças torturadas para pressionar ao limite o pai ou a mãe.

Quando você decidiu dedicar-se à memória dos mortos e desaparecidos políticos?
O primeiro momento foi quando eu estudava História na Universidade de São Paulo – USP. Percebi que o período da ditadura militar tinha tudo a ver com a minha própria história. Mas o momento de decisão foi com a descoberta da Vala de Perus, São Paulo, em 1990. Eu estava com vinte e três anos e entrei de cabeça na procura pela verdade. No cemitério Dom Bosco foram encontradas 1049 ossadas – entre elas as de presos políticos.

Ou seja, uma vala clandestina?
Era um lugar de desova das vítimas da repressão policial. Havia mortos pela ditadura, mortos pelo Esquadrão da Morte, mortos pela miséria. De um jeito ou de outro, todos vítimas do Estado. Tenho notícias de ossadas de crianças que, acredita-se, foram mortas pelo surto de meningite do ano de 1975, em São Paulo. A ditadura proibiu que a mídia divulgasse. Um caso de censura chocante.

A partir daí você não parou mais…?
Na sequência de Perus, fomos pesquisar nos arquivos do Instituto Médico Legal de São Paulo. Não foi fácil. Encontramos muitos obstáculos. Nesse momento percebi que a memória dos desaparecidos era a memória de todos. Tinha que ser pública. Depois demos um salto, com o apoio da prefeita Luiza Erundina (1989-1993) formamos a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos. Passamos a pesquisar os arquivos do Dops. E não paramos até hoje.

O Brasil é um país sem memória?
Pois é, desmemoria tem tudo a ver com impunidade. O Estado brasileiro tem uma longa tradição de queimar arquivos, rasgar documentos. Aconteceu com os documentos da escravidão, com Canudos. E agora querem que aconteça com o Araguaia. Já existem testemunhos, inclusive de agentes da repressão, contando do massacre que o Exército fez por lá. Mas é tudo muito lento.

A justiça é lenta?
Isso todo brasileiro sabe. Mas não é só a justiça que é lenta. Há falta de empenho político em investir nas pesquisas que podem trazer a verdade, ou seja, a memória do que aconteceu na hora da morte de muitos mortos e desaparecidos. Trata-se, também, de direitos humanos. Os familiares e a sociedade precisam saber o que aconteceu e quem são os responsáveis. A falta de responsabilização é o principal estímulo à impunidade.

O direito ao luto?
Você só fecha a história se souber como aconteceu. Visitei a mãe de um desaparecido que até hoje não conseguiu desfazer o quarto do filho. Estão lá o piano, as roupas no armário, os objetos pessoais. Essa mãe tem direito ao corpo do filho e à sua memória. Em outras palavras, memória e justiça caminham juntas.

Argentina e Chile parece que avançaram bem mais do que o Brasil.
Porque o processo deles é mais transparente. O acesso do cidadão à justiça é mais fácil. Eles estão pondo na cadeia os torturadores, enquanto os torturadores daqui seguem livres e soltos. Responsabilizá-los virou uma espécie de tabu. Evoca-se a Lei da Anistia. Mas a tortura não é crime político. A tortura é crime contra a humanidade. Segundo a lei, inafiançável e hediondo.

Aliás, continua-se torturando nas delegacias e presídios brasileiros.
Pode pôr na conta da impunidade. Denúncias são feitas, nomes são apontados e fica por isso mesmo. Nosso país é vergonhosamente violento. Mas acredito que uma democracia não pode viver com práticas de tortura. São incompatíveis.

Na sua opinião, o que mais falta à democracia brasileira?
Falta tornar públicos os porões da repressão do Estado. E para isso é preciso abrir os arquivos, derrubar os impedimentos, romper os pactos de silêncio que protegem os militares. Falta recolher e publicizar a memória dos dizimados pelo Estado. Claro que, ao publicizar essa memória, os torturadores e oportunistas também irão aparecer.

E onde entra a paz em tudo isso?
Só teremos paz se tivermos a plenitude dos direitos humanos. Só teremos a plenitude dos direitos humanos se tivermos justiça. E para se ter justiça precisamos de memória.

Publicado originalmente no livro Mulheres Fazendo Pazes, da Associação Mulheres pela Paz


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5 respostas para “Esqueço não”

  1. Cida Santos disse:

    Muito boa entrevista. Parabéns.

  2. Adriana Rafael disse:

    Obrigada por apresentar a história dá Janaína Teles. Gosto desse tema e desconhecia essa estratégia – usar os filhos na tortura.
    Triste.

  3. […] Você vai ver sua filhinha num caixão Indiciada e demitida, Amelinha e seu companheiro César Teles (morto em dezembro de 2015) optaram pela vida clandestina. Foram oito anos, divididos entre Rio de Janeiro e São Paulo. Tive vários nomes de guerra. Trabalhávamos numa gráfica clandestina e éramos radioescutas. Nesse período nasceram meus dois filhos, Edson e Janaína.  […]

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