Do H ao Zero

Sem carteira assinada

Ilustra: Dicionário Lello Universal Ilustra: Dicionário Lello Universal

Escolhi uma profissão sem carteira assinada e nem plano de carreira. Também não é citada na última e polêmica Reforma Trabalhista, patrocinada pelo governo Temer. É profissão da família tentativa-erro-acerto. Muitas vezes dá tudo errado, outras até dá certo. Do H ao Zero se parece com a profissão do atleta que se equilibra e se desequilibra na corda bamba. 

Acho que decidi que seria escritora quando estava sendo alfabetizada, pois me lembro do prazer com que escrevi as primeiras letras, notadamente quando consegui desenhar a letra H. Senti júbilo.

Mais tarde, quando resolvi contar que era isso o que queria ser, não fui exatamente encorajada. Os adultos da época – volte cinquenta e poucos anos – não lidavam muito bem com sonhos das crianças. Por exemplo, minha avó materna, dona Cosette, pontuou que escrever era no máximo um hobby, atividade de feriados.

Mas é claro que insisti. Fui me formando por conta própria. Gostava de acariciar cadernos. Abria na primeira página e o imaginava completamente preenchido. De fato, hoje, devo ter uns 100 cadernos lotados de frases.

Cadernos do H ao Zero

Cadernos da blogueira

Todos eles estão num grande baú entre bolinhas de naftalina para afugentar insetos leitores. Não sinto vontade de ler nada do que escrevi neles, mas também não jogo a coleção no lixo.

Nessa vida de escritora, fui e vou tentando de tudo. Roteiros para vídeo e tv, contos para concursos, romance, textos para folhetos, revistas, jornais, internet. Ficção, publicidade, jornalismo. Sou uma franco-atiradora de parágrafos.

Minha grana no banco? Sempre no limite. Nada de conta poupança, nada de investimentos. O dinheiro que nasce morre no dia seguinte. Não dá para pensar em futuros.

Alguém deve estar perguntando:
Por que insistir numa profissão tão insegura, tão mal paga?

Tenho duas repostas. A primeira, estou crescidinha demais para mudar de ramo. Deveria ter pensado nisso há mais de quarenta anos.

A segunda, bem mais verdadeira, é que eu adoro escrever. Desde aquela letra H da alfabetização veio um alumbramento que me fez prisioneira. Sei que farei isso até o fim desta vida e em outras. Se outras houver.

Pois existe no ofício de escrever uma delícia impagável. A excitação de partir do zero. Um novo texto é sempre um começo, uma tentativa. O bom texto escrito hoje não garante qualidade ao que será escrito amanhã.

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7 respostas para “Do H ao Zero”

  1. julio cesar santos poyares disse:

    se ler é voar pelo desconhecido, escrever é construir asas que possibilitem esse voo

  2. […] mais de 40 anos fiz da comunicação verbal (escrita) o meu motivo de estar no mundo. A minha aprendizagem. Ainda sou aluna e creio que seguirei assim até o meu […]

  3. Parabéns Fernanda! Tudo que você publica cativa o leitor. Beijos.

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