Deler

Para Bel Santos Mayer, formadora de leitores Por que ser um leitor? Se for de poesia, para enxergar estrelas ao meio-dia. Se for de prosa, para…

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Para Bel Santos Mayer, formadora de leitores

Por que ser um leitor? Se for de poesia, para enxergar estrelas ao meio-dia. Se for de prosa, para visitar a experiência dos outros. De biografias, para conhecer fatos e fotos. De autoajuda, para ter um empurrãozinho. De notícias, para ter assuntos. De crônicas, para ouvir um lero ao pé do ouvido.

Aquilo que se lê importa muito pouco. O que interessa é a leitura. Conheço gente que só lê ciências sociais, outros que se amarram em histórias fantásticas. Existem aqueles que passam a vida lendo a bíblia, decorando salmos e parábolas. Ou os que são leitores de culinária – seja afegã, colombiana, francesa.

Tem leitor que adora o cheirinho dos livros e as cócegas das páginas nos seus dedos. Outra legião carrega sua biblioteca no Kindle e congêneres. Existe o cara que só lê deitado, a moça que só lê sentada. Há leitores de beira de piscina, de areia de praia, de barra de bar. Sem esquecer dos que leem debaixo de mangueiras, abacateiros, marquises de ônibus.

O Edi – que tira um excelente café expresso atrás do balcão da padaria Pioneira, na Vila Madalena, Sampa – é um leitor de trem. Ele aproveita o trajeto Lapa-Franco da Rocha para nadar e se refrescar com as letrinhas. Uma manhã, ele me descreveu sua prática diária de leitura sobre trilhos como a hora do deleite.

Pergunte para leitores por que eles leem? As respostas serão variadas: Para aprender, para se atualizar, para matar o tempo, para ficar mais sabido. Alguns serão diretos: Leio por vício. Talvez seja um dos poucos vícios que não faz mal à saúde, não dá cadeia, não incomoda terceiros.

Mas atrás de qualquer resposta existe a principal: pessoas leem por prazer. Pela delícia de sair do calor de Pirituba para o frio da Sibéria. Pelo encanto de ser uma senhora de 70 e virar cúmplice, em algumas páginas, de uma jovem de 24. Pela emoção de acompanhar o último dia do suicida Getúlio Vargas. Pela paixão de mergulhar no coração da palavras. E também por deixar as histórias devorarem nosso coração.

Então vai a dica para quem faz o nobre trabalho de incentivar novos leitores. Não minta para eles dizendo que ler irá ajudá-los a subir na vida, a ganhar dinheiro. Há atalhos mais curtos para o mercado. Diga a verdade: ser leitor é conquista e apropriação de um prazer que não conhece fim.

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26 respostas para “Deler”

  1. Irene disse:

    Delícia de visão na tela que trouxe cheiros, sabores, texturas e rumores internos que denunciam minha total identificação. Parabéns!

  2. marilda carvalho disse:

    Maravilhosoooooo

  3. Maria Helena Souza da Silva disse:

    Mui bueno. Ler é prazer.

  4. Maria Cristina Gonçalves disse:

    Sou professora de língua portuguesa para o ensino básico. Sempre digo para meus alunos que ler faz com que você viva a vida mais plenamente. Mais ou menos a mesma ideia. Muito bom!

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Maria Cristina, professora de português? Que maravilha! Olha só, se quiser, você pode usar qualquer texto do meu site com seu alunos. Eu ficaria encantada. Beijo e obrigada por sua leitura.

  5. sbbmoura@gmail.com disse:

    Eu leio por tudo isso! Acredito que poderia ler mais, muito mais.
    Adoro ler seus escritos enquanto tomo o desjejum.

  6. Vilma Silva disse:

    Apropriação! Essa palavra me pegou! Na minha experiência de leitora, o ato de ler foi sempre tomar posse de algo em mim mesma. Já estava ali e eu não sabia. A imagem que me vem dessa vivência é a de um Colombo descobridor da América. São intermináveis essas Américas. A viagem não encontra mesmo fim, como você disse.

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Vilma, imagem boa essa sua: um Colombo descobrindo a América. Sabe? Quando alguém me diz “eu não gosto de ler”, sempre respondo: “Que pena pra você”. Obrigada, mais uma vez, pela leitura. Beijo.

  7. Valquiria Pimentel disse:

    Ótima reflexão sobre o prazer da leitura ! Parabéns.

  8. Valquiria Pimentel disse:

    ESTADÃO -Caderno ALIÁS -por Gilles Lapouge – 07 Janeiro 2017 | 16h00

    O eterno retorno do livro: mesmo que seja esquecido durante milênios, ele sempre renasce. Na biblioteca ou na poeira, os anos passam por ele como sonhos. Mesmo esquecido durante milênios, basta abri-lo para que volte a pulsar – ele sempre sairá vencedor, pois alimenta-se das artimanhas do tempo.

    Naquela noite, como não conseguia dormir, fui a Caracórum, na Mongólia. Não foi como ir à casa do vizinho, principalmente porque Caracórum desapareceu há séculos. Onde existiu a cidade, hoje só existe areia. Felizmente, eu tinha O Livro das Maravilhas, de Marco Polo. Bastou virar umas páginas para ir ao século 12 e me deparar com milhares de funcionários, soldados de capacete pontudo, artesãos usando bonés com a cor amarela, vermelha ou azul correspondente a seu ofício, mulheres tímidas e provocantes, dromedários, cachorros, porcos, cavaleiros, trovadores, bandos de monges com túnicas cor de açafrão. Passeei por duas horas. Em seguida, fechei meu Marco Polo e dormi.
    Um livro é uma usina, a menor de todas, mas não há nada mais forte do que essa coisinha. Perto do livro, Volta Redonda ou Cabo Canaveral são frágeis, pequeninos, uma brincadeira. Já o livro, ou o pergaminho, ou o in-fólio, se comparados a elas são verdadeiros hércules.
    Guarde-se um livro de poesias num sótão, num porão, numa urna. Esqueça-se da situação por alguns milênios, tempo em que dez impérios desaparecem e centenas de milhares de humanos nascem e morrem. Voltando ao local, encontraremos tudo coberto de detritos e poeira. Mas, ao soprar o pó, começa-se a ouvir ruídos tênues, como suspiros. É o livro que renasce. Pistões e bielas põem-se a funcionar. Lembra um coração que volta a pulsar. O livro é um relógio em que os deuses informam as horas. Remontado o pequeno mecanismo, a morte desaparece.
    Essa estranha usina não se contenta em sobreviver. Aproveita seus longos sonos para instalar novos programas no disco rígido. A Odisseia ou a Ilíada podem ser as mesmas do tempo da Grécia antiga, mas foram enriquecidas com sentidos antes desconhecidos, ganharam melodias secretas. O livro jamais descansa. Na biblioteca ou na poeira, os anos passam por ele como sonhos, mas, indiferente, ele segue seu caminho. Resiste a tudo – aos séculos, aos leitores, aos críticos, aos que escrevem prefácios. Sai sempre vencedor. Alimenta-se das artimanhas do tempo.
    Quando criança, eu colhia limões para fazer tinta transparente, a “tinta invisível”. Escrevia poemas com essa tinta. Com o papel exposto ao calor, os poemas surgiam do vazio. Depois, voltavam a desaparecer lentamente – os primeiros volumes de minhas “obras completas” não seriam nunca lidos. Mas isso não me assustava. Desde muito pequeno, sabia que as palavras, uma vez escritas, continuam a executar nas sombras seu teatro mágico.
    Há muito não uso essa tinta invisível. Sua familiaridade, porém, deixou marcas em meu espírito. Atribuo a ela meu gosto pelo palimpsesto. E o que é um palimpsesto? Voltemos à Idade Média. Um escriba redige textos. Um dia, ele constata que não há mais pergaminhos no convento. Pega então um pergaminho usado, raspa seu conteúdo e, no pergaminho de novo virgem, escreve um novo texto.
    Essa técnica era usada primeiramente para suprir a penúria de pergaminhos ou de velinos (pergaminhos mais finos, feitos de couro de bezerro). Mas também permitia censurar. Na guerra teológica, o palimpsesto era uma arma. Para abrir espaço aos grandes textos cristãos (Evangelhos, Pais da Igreja, Salmos, etc), apagavam-se do pergaminho textos originais que pudessem ser considerados perigosos, mandando-se para o inferno, ou seja, para o silêncio e a ausência, grandes autores pagãos – gregos, latinos e hereges em geral.
    Os monges irlandeses do século 12, discípulos de São Columbano, eram eles próprios grandes santos. Do alvorecer à noite, no frio terrível dos conventos, copiavam os Evangelhos, os Cânticos, as Epístolas de São Paulo em pergaminhos antes ocupados por Cícero, Virgílio, Platão, Tácito ou Xenofonte. Algumas obras primas da Antiguidade desapareceram assim.
    Na verdade, os textos destruídos ou expulsos não desaparecem. Mesmo lavados, raspados, ilegíveis, continuam lá. Mexem-se. Murmuram. Debaixo do discurso oficial está a voz desaparecida. Ela emerge balbuciante, embora às vezes incompreensível ou inaudível. Como não pensar aqui na psicanálise? Há em cada um de nós um discurso do inconsciente sufocado nas profundezas, que foi repelido ou apagado para dar lugar à fala autorizada do consciente. A psicanálise sabe como reencontrar e fazer ouvir essa palavra mutilada.
    O mesmo ocorre com os livros. Por exemplo, dois discursos de Arquimedes, o Tratado dos Corpos Flutuantes e o Método e Teorema Mecânicos, foram escritos no século 10. Duzentos anos depois, um monge de Constantinopla, que estava sem pergaminho, lavou o texto de Arquimedes para escrever em seu lugar uma oração. Esse homem, inocentemente, infligiu uma terrível mutilação à Biblioteca do Mundo.
    Mas no século 20, depois de oito séculos de vazio total, o discurso de Arquimedes e seus desenhos, dos quais não possuímos mais nenhum exemplar, ressurgem das profundezas da noite graças a recursos científicos. Assim, podemos esperar que uma grande parte do pensamento humano que se perdeu no caminho possa ser salva. Na verdade, é do extravagante diálogo entre o texto que se permite ler livremente e o texto oculto, o texto proibido, que nasce a força e a nobreza do pensamento humano.
    No Brasil, há cerca de 40 anos, vi um palimpsesto bizarro. Foi em Ouro Preto. Ali, no século 18, os escravos negros que trabalhavam nas minas de ouro às vezes preparavam fogos de artifício. Obtinham a pólvora raspando o salitre de cavernas. Em seguida, embalavam essa pólvora em partituras de música barroca que recolhiam do lixo. Bem mais tarde, já em nossa época, um músico teve a ideia de decifrar uma dessas velhas partituras reencontradas. Por acaso assisti a essa ressurreição. Foi comovente.
    Em determinados momentos, a música era inaudível ou inexistia, substituída por silêncios. Eu me lembrava de que esses silêncios eram antigos, de 300 anos. No entanto, quase que se podia adivinhar sua forma.
    O escritor russo Leon Tolstoi, autor de Guerra e Paz, em 1910, já com 82 anos, cansado da mulher e de uma parte dos 13 filhos, fugiu. Foi durante um inverno brutal. Ao deixar seu castelo em Isnaïa Poliana, Tolstoi teve uma bronquite. Queimando de febre, foi obrigado a descer do trem em uma estação, Astapovo. A notícia se espalhou. Como Tolstoi era a figura mais célebre do mundo, imediatamente afluiu a essa modesta estação uma horda de jornalistas, embaixadores, dignitários do czar. O chefe da estação cedeu o próprio quarto ao escritor. No pátio, a multidão cobrava notícias. A mulher de Tolstoi, Sophie, chegou e quis ver o marido. Tolstoi se recusou a vê-la. Fora, na neve, a multidão acompanhava a agonia do gênio. Tentava vislumbrar através dos vitrais embaçados pelo frio seus últimos instantes. Tolstoi, deitado, respirava penosamente. Com a ponta dos dedos, “escreveu” alguma coisa nos lençóis enrugados em que morria – seu último manuscrito, sua derradeira palavra antes de cruzar o portal do desconhecido. Era, porém, um manuscrito ilegível, inexistente, como a parte apagada de um palimpsesto. O que Tolstoi escreveu permanece oculto no nada. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

  9. Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

    Valquiria, obrigada. Enriqueceu a postagem. Beijo.

  10. Bel Santos Mayer disse:

    Fê querida, obrigada por dedicar-me um texto tão delicioso de ler.
    Seguimos, incansavelmente levando literatura para os cantinhos mais esquecidos de nossa cidade. Levando livros até para quem acha que não gosta de ler. E este teimosia, tem nos levado longe…
    Este será meu ano de leitura. Em tempos ocos só as palavras cuidadosamente escolhidas para alargar o pensamento.
    Obrigada por este Deler.

    Obrigada!

  11. Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

    Bel, você é uma linda.

  12. Ivana Lopes disse:

    Adorei esse texto sobre leitura. Concordo com você cada um tem seu motivo pra ler,não importa qual seja o motivo, o importante é ler. Gostaria que a leitura fosse uma coisa muito popular no Brasil acho que muita coisa poderia melhorar com isso. A nossa vida fica melhor a cada novo bom livro que lemos. Cada texto acrescenta em nós algo que ainda não tínhamos, nos enriquece.

  13. Jaqueline Bispo disse:

    Os seus textos são muito inspiradores, Fernanda.
    Me vi escrita nessas palavra que bem definem tipos de leitores e os seus motivos para sempre lerem.
    Como Leitora e Bibliotecária me vejo obrigada a compartilhá-lo.

    Abraço

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Jaqueline! Puxa, nada me deixa mais feliz do que ter um texto compartilhado. Por favor, compartilhe o que você quiser. TamoJuntas!

      • Alderon disse:

        Hoje foi dia de leitura de reclamações de usuárias/os da Defensoria. Tirei o atraso, foram mais de 200 e-mails dos encaminhamentos realizados pela equipe em minhas férias.No final do dia esse email escondido em minha caixa pessoal – Deler.Li seu lindo texto e os maravilhosos comentários. Ufa! Como li.
        Bjos

  14. Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

    Que bom ler isso, Alderon querido. Fico feliz com comentários de todos os leitores. Mas quando o leitor é um grande amigo, a satisfação é plena. Valeu, meu Alderon! TamoJuntos!

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