Ave, Carlos!

O poeta maior

Ilustra: Fernando Carvall Ilustra: Fernando Carvall
Drummond

Ilustra: Fernando Carvall

Morto em 1987, o poeta mineiro, nascido em Itabira do Mato Dentro, no longínquo 1902, nunca some da minha cabeça quando a lembrança é a poesia. Para quem conhece Carlos Drummond de Andrade, reler sua vasta produção é saborear vinho envelhecido, feijoada cozida na véspera, bacalhoada transnoitada – delícias impagáveis. Para quem o lê pela primeira vez, trata-se da oportunidade de banhar-se nas águas de um rio que flui por emoções, ideias e, sobretudo, imagens e sonoridades.

Degustar e olfatear Drummond, em todas as suas faces, é marcar data e local com o prazer. Autor de dezenas de livros, ele exercitou a crônica, o conto, a poesia. Sendo que encontrou seu tom maior e melhor no derramar um verso depois de outro, antes de outro, ao lado de outro, entre os outros. Fez poemas com maestria ímpar e paciência sábia: Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. Esses versos, por sinal, mereceram a honra de estampar-se epígrafe no Dicionário Aurélio.

Também o excelente Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, escolheu – ao lado de textos do português Eça de Queirós e do moçambicano Mia Couto -, para representar o Brasil, versos de Drummond: Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave?

A menina e o poeta
Em 1968, eu tinha 12 anos, e toda autoconfiança do mundo, quando entrei na redação do lendário diário Correio da Manhã, no Rio de Janeiro. Meu objetivo era resolver uma lição de casa que consistia em pesquisar a vida de um poeta. Então tive a brilhante ideia de matar a sede diretamente na fonte. Perguntei por Carlos Drummond de Andrade. Um paciente jornalista, infinitamente mais velho do que eu, explicou que o poeta escrevia suas crônicas em casa e nunca aparecia na redação.

Insisti. Conformado, o jornalista telefonou para o apartamento do poeta, em Copacabana. Minha filha, se eu fosse atender a todo colegial que me procura, eu não faria mais nada, disse a voz do poeta do outro lado da linha. Então aconteceu algo maravilhoso, para superar a ausência do entrevistado tive que ler muitos poemas de Drummond.

A rotunda negativa não gerou mágoa, ao contrário, gravei para sempre a inflexão de sua voz. Tal como em seu belíssimo poema Resíduo: Se de tudo fica um pouco, / mas por que não ficaria / um pouco de mim? / no trem que leva ao norte, no barco, / nos anúncios de jornal/ um pouco de mim em Londres, / um pouco de mim algures?/ na consoante / no poço?

Poeta amado
Carlos Drummond de Andrade conseguiu o sonho de 99% dos escritores, tornou-se sucesso de crítica e de público. Cultuado pelos cérebros das faculdades de letras e pelo coração dos leitores. No fundo, ele é bem isto: alguém que escreve para fazer pensar e deixar sentir. Alguma Poesia, Brejo das Almas, Sentimento do Mundo, José, Rosa do Povo, Claro Enigma, Lição das Coisas, Farewell (edição póstuma) são alguns dos livros deixados por Carlos.

Em 1989, o rosto, a assinatura e versos do poeta foram gravados na nota de cinqüenta cruzados novos. Até uma campanha pela prevenção do HIV/Aids lançou mão do seu famoso Quadrilha: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Poeta-liberdade. Cheio de surpresas: funcionário público por toda vida, fez poesia sem terno e gravata. Recusou-se terminantemente a entrar para a Academia Brasileira de Letras. Tinha pavor à pompa e à circunstância dos protocolos. Aversão às gavetas chaveadas. Amor às janelas abertas.

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7 respostas para “Ave, Carlos!”

  1. Lucio Mota disse:

    Não ,não é apenas um retrato na parede.!

  2. […] Leia também Carlos Drummond de Andrade […]

  3. Antonio Pimentel disse:

    Parabéns, Fernanda! A crônica é linda. O tímido poeta ia gostar muito. Muito lindo.

  4. […] de Arte Moderna ter injetado ares de modernismo na cidade e no Brasil. Alguns anos mais tarde Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) traduziria com perfeição o espírito dessa época: Stop a vida parou? ou foi o […]

  5. […] de Deus (ditado popular). Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra (Drummond). Ando com muitas dúvidas. Ando com muitas angústias. Ando com muitos medos. Fulaninho chega, […]

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