12 Cais

Caligrafia Fernanda Pompeu Caligrafia Fernanda Pompeu

Com a insurgência que, uma vez apertado o gatilho, a bala dispara, Cá Camila se encontrou na Ladeira da Carioca – último passadiço a ser vencido para chegar ao porto. A Ladeira tem no centro uma praça e no centro da praça um pelourinho – engenhoca colonial para fins de tortura. Faz cento e alguns anos, mulheres e homens negros eram nele amarrados e o açoite tal serpente dançarina tatuava em suas peles o ódio escravagista. Ébano talhado à chibata.

Cá Camila desce a Ladeira da Carioca como quem caça rumores, objetivando sutilezas. Surpresa com o teatro de rua: a conversa dos camelôs, a metafísica dos mendigos, a zoeira dos automóveis disputando com os transeuntes até mesmo a calçada.Tudo é novidade para essa, até ontem, habitante de um bosque.

Seu olhar ensaia um travelling urbano passeando por marujos, prostitutas, burocratas e infinitas crianças. Finalmente o olhar se detém em uma sacada de sobrado, onde mãe filha e pai fixam, cada qual, um ponto abstrato e solitário sobre a multidão. Na mão do patriarca um cálice, que ela supõe conter vinho do Alentejo. Na mão da mãe um pote, que ela supõe conter cianureto. Na mão da filha o vazio, que ela supõe conter a esperança.

Cá Camila entra no Grande Mercado de Peixes, precisa assegurar para a viagem a provisão de boca: compra cação badejo corvina e litros de água mineral para enfrentar a fome e a sede em alto mar. Ao voltar à Ladeira da Carioca, se dá conta de que sua mochila foi surrupiada. Puxa vida! Adeus: Dom Casmurro, a garrafa de rum, o resto de atum, o unicórnio-miniatura, o retrato três por quatro do galpão de artesanias. Ela agora possui apenas a compra que fez no Mercado, mais: o tênis violeta, o chapéu lilás e a capa negra. Consolando-a do furto, vigoroso odor de maresia visita seu nariz. A proximidade do mar a excita. Então o porto sorri para ela.

O porto, ei-lo, palco onde se espicha a grande memória marinha. Mesmo sem haver, podemos nos lembrar de naus acinzentadas, escaleres baleeiros, barrocas caravelas, brigues negreiros, itas do norte e uma gôndola que o mar roubou de Veneza. Palco onde se enfileiram exagerados transatlânticos, perigosos petroleiros e masculinos cargueiros. Conjugações entre o sólido e o líquido, o familiar e o estranho. Entre o que dá pé e o que afoga.

Molhe-cais: onde o mar visita a terra e no mesmo gesto lhe diz adeus. Mastros que quase tocam o céu. Manchas de óleo nas águas. Garrafas vindas da África. Sargaços de outras plagas. O porto não é o oceano, é a sua promessa. A vontade de deixar, de ir-se, de passar de um continente a outro como quem quebra uma esquina.

Rege o ancoradouro uma paz inerme – embarcações adormecidas embaladas pelas vagas, abanadas pela brisa, acariciadas por sereias, sonhando, sabe-se lá, com que ilhas. Guelra de madeira pensando a si mesma, respirando quietudes móveis até o bizarro momento em que entram em cena os trabalhadores do mar. Eles trazendo seus gritos, cantos e interesses. Aí o porto vira feira. Agitação de corpos suados, gingar de sandálias, ranger de cargas na madeira. Um menino salta na água, dá mergulhos de cachalote. Um cão com focinho empinado soslaia uma gaivota que derrama nas espumas sua infinita graça.

Reza a ópera dos costumes: homens ao mar, mulheres na praia. Ulisses e Penélope reencarnados em um Partenon tropical. Ao longe, indiferente, o alto mar traga o horizonte. Em plano próximo: um pequeno pesqueiro tenta romper a barra da rebentação com a proa inclinada, parece ensinar que se vence um inimigo poderoso quando, na luta, se esquiva o rosto. Que só uma tática derrota a força: a arte.

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Uma resposta para “12 Cais”

  1. Silvana Moura Moura disse:

    Gostei!

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