Stuart (1945-1971)

Morto ao chegar

Ilustra: Carvall Ilustra: Carvall

Quando vi meu pai, Marcus Flávio Pompeu, morto, pensei para me consolar: Ele teve uma vida imensa. Conheceu o fracasso, mas também o sucesso. Tentou, errou, tentou novamente. Foi homem capaz de uma consistente história de amor de vida inteira com a minha mãe. Acreditou no comunismo dos 15 aos 83  anos de idade. Deu muito azar em várias situações, mas, no balanço das perdas e ganhos, ele foi um sujeito de sorte.

Ao ler trechos das biografias dos mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, inaugurada em 1964, percebo o quanto a maioria era jovem. Gente que nem havia encostado nos trinta. Olho para as fotografias e me ponho a imaginar o que eles seriam hoje.

Certamente, velhinhos e velhinhas interessantes. Alguns até desinteressantes. Não importa. Teriam tido décadas inteiras para viver suas histórias. E o inenarrável prazer de contá-las para os mais jovens. Que ninguém duvide que tudo é vivido duas vezes. A primeira no ato. A segunda na memória falante. 

Agora me detenho no rosto de Stuart Edgar Angel Jones, o Tuti. Um rapaz findo aos 25 anos. Não por conta do vírus Ebola ou por desastre de carro. Ele foi torturado até a morte dentro do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. Amarram-no a uma viatura, com a boca colada ao cano de escapamento. Daí deram voltas no pátio. A viatura acelerava e freava. Tuti com a pele esfolada, tossia forte.

Essa cena foi testemunhada – e depois relatada a Zuzu Angel, mãe de Stuart – por um outro preso, o Alex Polari de Alverga. Fim da história? Não. Até hoje, janeiro de 2016, os restos mortais do rapaz não foram encontrados.

dois relatos diferentes. Notícia 1: seu corpo foi jogado de um helicóptero em alto-mar. Notícia 2: ele foi enterrado como indigente em algum cemitério carioca. Grandes chances para ser o Cemitério de Inhaúma, aquele que Lima Barreto (1881-1922) eternizou no estupendo conto Os Enterros de Inhaúma.

Procuro mais informações e descubro que antes de ingressar no MR-8 – um dos pequenos grupos que optaram pela luta armada para enfrentar a ditadura – Stuart Angel havia sido um desportista, tendo ganho o bicampeonato de remo pelo Flamengo. Também tivera vida de estudante de economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Tento imaginar o que Stuart teria feito se não tivesse a vida interrompida naquele maio de 1971. Medalhista de Olimpíada? Economista de banco? Professor de educação física? Vendedor de secos e molhados? Qualquer coisa poderia ter acontecido na vida dele, do mesmo jeito que qualquer coisa acontece nas nossas.

Ele era casado com Sônia de Moraes Angel. Uma moça também militante, também torturada e morta aos 27 anos. Também cheia de possibilidades. Será que eles estariam juntos até hoje? Será que teriam filhos? Quem sabe agora teriam netos? Nenhum dos dois viveu para contar o futuro deles para nós.

Aliás, eles não tiveram foi tempo. Porque na casa dos 20 anos, a gente ainda nem tem um passado muito grande. Temos, em geral, a cabeça cheia de sonhos futuros. Eu por exemplo, em 1971, achava que seria médica. Acabei estudando cinema e me tornei essa escritora que você lê neste momento. 

Stuart e Sônia foram apenas dois entre os muitos jovens que a ditadura militar torturou, matou e sumiu com os corpos. Também fizeram isso com pessoas mais velhas. Os torturadores e seus mandantes não faziam cerimônia. Eram todo-poderosos. E, até os dias atuais, esses senhores da morte estão livres e soltos. Não digo leves, pois duvido que sejam.

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7 respostas para “Stuart (1945-1971)”

  1. encarnação melgar disse:

    Amei! Beijos.

  2. ADRIANA RAFAEL PINTO disse:

    Que ideia brilhante eternizar e enaltecer a luta dos militantes contra a ditadura. Conhecer essa história e o fim trágico dos Angels, convida a reflexão sobre a capacidade e crueldade do governo militar. Parabéns pela crônica e ao artista da foto-gravura. Beijos,

  3. Silvana Moura disse:

    Sempre que leio sobre período tão tenebroso , um nó se faz em minha garganta e lágrimas me inundam o âmago. Constato que tais reações são alertas para a memória que não deve ser esquecida, ainda que muitos desinfornados ou adeptos aos modismos insanos, queiram macular a verdade, sou professora de História e meu dever é , sempre, ser fiel aos fatos.
    Obrigada por me auxiliar com texto tão sincero e emocionante.Outra vez, com sua licença e devidos créditos, peço autorização para usá – lo em sala de aula . Fernanda Pompeu em prol do conhecimento!
    Abraços,

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Silvana, você usar qualquer texto meu em suas aulas me enche de alegria e também de orgulho. Obrigada.
      Adorável você ser professora de História. Tão importante contar (e refletir) sobre o passado, pois, num certo sentido, o presente é o passado atualizado (para o bem e para o mal). Beijo grande, F.

  4. […] social, se pôs ao lado dos que lutavam por terra para trabalhar e pelo teto para morar. Em 1971,  auge da ditadura militar, fugindo da perseguição política, que a impediu de dar aulas na universidade de seu estado, […]

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