Tempos Brutos

Eu só quero que Teresa me ame

Arte Lucíola Pompeu Arte Lucíola Pompeu

Desde garotinho preferiu o não ao sim, a tentativa à certeza. Esse temperamento não correspondia às fantasias dos pais e professores. Ele era uma ave rara no meio de um rebanho rotineiro. De avós a netos, todos haviam encarado a vida como uma biblioteca de tramas já escritas. Na qual bastava estender a mão, colher um volume e viajar para conflitos e resoluções alheios. Ranulfo pensava diferente. Acreditava que, para além de acompanhar histórias já contadas, poderia ele mesmo escrever a sua. Pensando assim, chegou à juventude e, junto, ao teatro.

Depois do expediente nos Correios, Telégrafos e Telefones de Portugal – onde entediava-se em lançar, num caderno largo de capa dura e preta, débitos e créditos -, Ranulfo rumava para o Café Confraria fundado 50 anos antes de seu nascimento. Pedia uma bica e punha-se a trabalhar. Escrevia para o teatro e também para Teresa, a jovem atriz por quem estava apaixonado. Sem dúvida, Teresa já fazia teatro de verdade pois estava no palco, enquanto ele só entraria na mágica ribalta ao concluir sua peça.

Faltava muito. Ele lutava para que as palavras traduzissem suas emoções. Tentava vergar o vernáculo, muitas vezes inflexível, para semear expressões ao mesmo tempo precisas e sensíveis. A Teresa ele não ousava declara-se. Ela tinha um jeito de quem queria e podia engolir a vida pela boca. Às vezes, Ranulfo pensava que o mundo era cenário para ela. Que todas as coisas – céu, mar, portos, cidades – haviam sido criadas para Teresa.

Ranulfo enganava no trabalho para arquitetar o fantasma de uma cena ou a sombra de um diálogo. O chefe da seção de contabilidade percebia e ia detestando o subordinado e seus rabiscos furtivos. Seu Manoel vivia em um dissabor infinito. Para ele apenas os números tinham materialidade e escrever frases era dever de casa de crianças. Não via a hora de dar uma chibatada de vida no empregado.

O Café Confraria, no bairro de Alfama, era um termômetro medindo a febre dos tempos. Havia vivido encontros, tertúlias, comemorações e polêmicas. Levas de escritores, jornalistas, atores, políticos tinham passado por suas mesas. Durante décadas, do cair da tarde até a despedida da lua, o café lisboeta assistira a transformações: burocratas viravam poetas, professoras viravam atrizes e os gatos, durante o dia pardos, revolviam-se em cores.

Mas no tempo de Ranulfo, as mesas estavam às moscas. Os garçons, antes seis, eram representados por um. Os parcos frequentadores tinham as caras cinzas e as bocas fechadas. O brilho do passado era sebo no presente. O candidato a dramaturgo chegava pontualmente às seis da tarde e punha-se a escrever até às duas da madrugada. Sem desistir, como o condenado Sísifo rolando infinitamente uma pedra ao topo da montanha, o rapaz perseguia as palavras.

A procura de Ranulfo ia muito além da trama da peça. Ele escarafunchava sua alma atrás da perfeita expressão. Tentava meter todo esse oceano no aquário das vírgulas, travessões e rubricas teatrais. No seu sonho, a peça quando pronta seria uma declaração documentada de amor a Teresa. Ele imaginava a moça lendo, incendiando-se pelo texto e procurando-o com fome de romance e sexo.

Os poetas por vezes são cegos. Por essa época, Portugal mergulhara no lodo. Vizinhos delatavam vizinhos, jornais eram censurados, reuniões proibidas, pessoas encarceradas sem notificações. Os teatros ou estavam vazios ou levando peças que falavam dos faraós do Egito, de Helena de Tróia, aliás interpretada por Teresa.

Ditadura, conjuntura, repressão, oposição eram realidades imperceptíveis para Ranulfo. Seus pés planavam a centímetros do chão. Se ele tivesse o biotipo cultural poderia ser chamado de anjo, mas faltavam cachos loiros, olhos azuis, altura e asas.

Então numa tarde no Departamento de Polícia aconteceu:
– Então, Manoel, trouxe alguma informação?
– A coisa está fraca. Os putos subversivos andam se escondendo como caranguejos.
– Abre o olho! Temos informações de um comunista infiltrado  nos Correios e Telégrafos.
Manoel saiu à rua pensando forte no subordinado Ranulfo.

Num domingo, o jovem dramaturgo quase ousou ler fragmentos de sua peça para Teresa. Mas na hora H, silenciou. Se ela não gostasse? Se ela detestasse? Definitivamente, o trabalho não estava pronto. Procurou refúgio no Confraria.

Três cafés e nove páginas revisadas. À medida que relia, os defeitos saltavam: palavras repetidas, adjetivos dispensáveis, concordâncias duvidosas. Como é difícil escrever! Mesmo quando os sentimentos estão cristalinos, perscrutar palavras que os traduzam é tarefa inclemente. Inclemente, Ranulfo saboreou o adjetivo. Pois inclemente andava também o amor que ele devotava a Teresa. O desejo pelos olhos, pela boca, pelo sexo, pela moça inteira consumia-o.

Por a semana seguinte, Ranulfo arredondou o herói da peça: uma personagem dedicada a igualar o querer ao poder, a supremacia dos impossíveis. O autor queria dizer ao público e a Teresa que a realidade não deve ter poder absoluto sobre a vida e que o sonho e a imaginação precisam de mais espaço no cotidiano das pessoas. Caso contrário, viver se torna trágico.

Num fim de tarde, chegando no Confraria, o garçom comentou com Ranulfo: Se as coisas seguirem ruins como estão, esta espelunca vai fechar. Ranulfo deu de ombros e foi sentar-se à mesa de sempre. Quando estava pegando o lápis, dois homens o cercaram. Um deles agarrou o caderno.
– Então, seu merdinda, o que você escreve tanto? É contra o governo? Contra as instituições?

Ranulfo sufocou-se, a truculência dos homens emudeceu-o. Eles eram da polícia política. Mãos treinadas em bater, viraram com brusquidão as folhas. Os olhos procuravam pistas de perigo, provas de propaganda subversiva. Depois os agentes relaxaram, trocaram olhares cúmplices. E um deles soltou a gargalhada.
– O merdinha é poeta! O Manoel está confundindo tomada com focinho de porco.

Puseram-se a ler em voz alta o trabalho de Ranulfo. Troçavam das belas palavras. Ridicularizavam as passagens filosóficas. Perdiam o humor com as falas engraçadas e se matavam de rir com os diálogos dramáticos. Ranulfo conseguiu recompor-se. Já havia cor em seu rosto. Balbuciou É minha peça de teatro. Um dos agentes começou a rasgar as folhas do caderno, enquanto o outro não tirava o sorriso da cara.

Foi demais para Ranulfo. Num ímpeto, se levantou. Queria argumentar. Mas no meio da primeira frase, levou um soco na boca do estômago. Tamanha dor o fez ver estrelas caindo do teto do Confraria. Curvou os joelhos. Antes de cair, ouviu:
– Isso é para você aprender a virar homem.

Brinde: 


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3 respostas para “Tempos Brutos”

  1. Marisa Paifer disse:

    Contundentes – texto e música!
    Triste a sina dos desencontros entre os viventes. Mais uma bela construção, Fernanda! Bravo!

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      No fundo, o livro de contabilidade da vida tem duas colunas: encontros de um lado, desencontros do outro. É assim, né? Beijo e valeu a leitura. Sempre.

  2. marilda carvalho disse:

    Forte como café coado na hora numa calçada do Maranhão. Lindo como o pires azul de porcelana. Triste como somos nós. Obrigada pelo tempo de escrever, Fernanda. Devia virar cena, ah, sim, devia.

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