Sérgio Buarque de Holanda

Ser o autor de um livro – Raízes do Brasil – que faz 80 anos segue como referência não é para qualquer escriba. Principalmente no Brasil…

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Ser o autor de um livro – Raízes do Brasil – que faz 80 anos segue como referência não é para qualquer escriba. Principalmente no Brasil onde a maioria se vangloria da memória curta.

Nascido no 11 de julho de 1902, no bairro da Liberdade em São Paulo, Sérgio Buarque de Holanda experimentou diferentes paixões na vida. Aos nove anos, compôs a valsa Vitória Régia, publicada na revista infanto-juvenil Tico-Tico – fonte de leitura e diversão entre os anos de 1905 e 1958.

Teve paixão pela boemia. Frequentou bares famosos acompanhado de jovens não menos famosos: modernistas, socialistas, poetas. Segundo Maria Amélia (1910-2010), a companheira com quem teve sete filhos, entre eles, Chico Buarque, Sérgio foi também um hábil dançarino.

Também cultivou a paixão pelas amizades. Foi um homem de muitíssimos amigos e amigas. Conviveu com uma dezena de escritores, entre eles, Antônio de Alcântara Machado, autor do delicioso Brás, Bexiga e Barra Funda; Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava. E a maior de todas as paixões: estudar, pensar e escrever o país. Não o Brasil da superfície. Sérgio mergulhou no Brasil profundo e pôde enxergar a trama das raízes que formatam a essência cultural brasileira.

Um faz-tudo intelectual
Sérgio Buarque pertenceu à estirpe dos intelectuais 24 horas, espécie atualmente em extinção. Em todas suas atividades – sociólogo, historiador, ensaísta, jornalista, crítico literário, professor universitário – comprometeu-se com o rigor de um lado e a ousadia do outro. Nas palavras do escritor e jornalista Daniel Piza (1970-2011), Sérgio foi capaz de conjuminar: a seriedade da pesquisa, a ousadia da interpretação e a consistência da análise.

Trabalhador, foi o primeiro diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e adido cultural na Itália. Também dirigiu o Museu Paulista (Ipiranga), onde criou as seções de História, Etnologia, Numismática e Linguística. Por doze anos, do ano de 1960 ao ano de 1972, planejou e coordenou a coleção História Geral da Civilização Brasileira – editada pela Difusão Europeia do Livro.

Na juventude, como repórter de O Jornal, foi enviado por Assis Chateaubriand para a Alemanha. Lá entabulou contatos, amizades e camaradagens com importantes intelectuais. Essa estada possibilitou que Sérgio trabalhasse na revista alemã Duco, mais tarde suspensa com os primeiros sinais da mão forte do nazismo.

A viagem a Alemanha também lhe rendeu um bico: traduzir as “falas” de filmes germânicos, entre eles, o clássico Anjo Azul estrelado por Marlene Dietrich. Em Berlim, fruto de um romance com uma alemã, nasceu o primogênito Sérgio Georg Ernest.

Raízes do Brasil e Visão do Paraíso
Parece impossível listar todos os artigos que ele assinou em jornais e revistas do mundo inteiro, todas as entrevistas e conferências que concedeu, todas as atitudes que definiram suas idéias e posições.

De fato, a bibliografia de Sérgio Buarque impressiona pela qualidade e quantidade. Entre tantos, Raízes do Brasil (1936) e Visão do Paraíso (1959) são os mais afamados e detentores das maiores fortunas críticas.

Mais do que leituras obrigatórias, são prazerosas. O historiador integra a seleta turma dos que dominam o idioma e têm a fineza de escrever com a clareza necessária e a elegância sempre bem-vinda.

Em Raízes do Brasil, o autor manipula diversos pares: trabalho/aventura, método/capricho, rural/urbano, semeador/ladrilhador etc. Já em Visão do Paraíso são discutidas as fantasias do “Éden” no descobrimento e colonização do país.

Com Visão do Paraíso, Sérgio Buarque recebeu o grau de mestre na Universidade de São Paulo. Outro intelectual de boa cepa, Antônio Cândido, dá uma dica: Qualquer um que queira mergulhar, em profundidade, no passado do Brasil terá como leituras básicas Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

O homem cordial e o pensador destemido
Um conceito trabalhado por Sérgio e bastante difundido é o do brasileiro cordial. Sem conhecer os argumentos, muitos ironizam essa idéia por acreditar que cordial seja sinônimo de boas maneiras e civilidade.

Não é bem isto, Sérgio define o brasileiro cordial como aquele que segue as razões do coração. Entre as inúmeras consequências dessa cordialidade está a dificuldade nacional em separar o público do privado.

Outra característica de Sérgio Buarque de Holanda foi a intolerância com os autoritarismos. No ano de 1945, participou do famosíssimo Congresso dos Escritores em São Paulo, sendo um dos signatários da “Declaração de Princípios” contra a ditadura de Getúlio Vargas.

Na ditadura militar (1964-1988), em várias ocasiões, Sérgio deixou claro o seu desassossego. No ano de 1980, dois anos antes de morrer, o autor de brilhantes páginas brasileiras participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Nascido tão pujante e agora tão combalido.

Se de tudo fica um pouco – como diz um verso de Carlos Drummond – de Sérgio Buarque de Holanda ficaram livros, filhos, recordações. Também a ideia de que pensar vale a pena e a reflexão não tem relação com a sisudez ou com o academicismo. Ao contrário, refletir e pensar podem ser estímulo e prazer.

Publicado originalmente no SatelJornal, sob edição de Carminha Fernandes


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