Senhorinha e Josefina

O Sexo Feminino No Brasil, os primeiros jornais editados e redigidos por mulheres empenharam-se, basicamente, na difusão da educação feminina. Essa foi a primeira luta política…

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O Sexo Feminino
No Brasil, os primeiros jornais editados e redigidos por mulheres empenharam-se, basicamente, na difusão da educação feminina. Essa foi a primeira luta política das mulheres letradas brasileiras: pleitear que mais e mais mulheres tivessem acesso à educação. Até então considerada coisa para homens.

Na corte do Rio de Janeiro e nas províncias, existiam publicações voltadas para a defesa da causa da elevação cultural das mulheres. No entanto, as editoras – que fizeram da imprensa o seu principal canal de expressão – adotaram diferentes linguagens e  pontos de vista.

Vamos encontrar distintos estilos de se fazer política, como o da educadora Francisca Senhorinha da Motta Diniz – editora de O Sexo Feminino, fundado em 1873, na cidade mineira de Campanha da Princesa. O jornal já nos primeiros números anunciava estar a serviço do projeto de educação feminina.

Francisca Senhorinha da Motta Diniz era mineira de São João d’El-Rei. Sua mais importante contribuição para a luta das mulheres foi a criação do semanário O Sexo Feminino – que trazia informações sobre  amenidades, mas que também tratava de temas polêmicos como a abolição da escravatura, o voto feminino e o movimento feminista em outros países. Ela também é autora do romance A judia Rachel, editado em 1886.

A linguagem empregada por Senhorinha era amena e conciliadora. Ela evitava discutir questões da polêmica política daquele momento: monarquia ou república? Embora a sua iniciativa de criar O Sexo Feminino tenha sido calorosamente acolhida por jovens militantes republicanos – redatores do jornal A República. Eles chegaram a enviar a Senhorinha uma carta saudando o aparecimento de O Sexo Feminino.

Mesmo após Senhorinha se mudar para o Rio de Janeiro e travar contato com a intensa vida política da corte, ela se manteve fiel ao seu estilo comedido ao tratar a inserção da mulher na sociedade.

Para ela, o engajamento na propaganda republicana não parecia ser uma estratégia adequada aos propósitos de elevar a condição cultural da mulher. Seus escritos revelam ceticismo quanto aos eventuais efeitos positivos da mudança do regime sobre a condição feminina.

Mas no calor dos acontecimentos que envolveram a proclamação da República, Senhorinha deu sinais de ter passado a acreditar na possibilidade de conciliar a campanha pela elevação cultural da mulher com a adesão a movimentos políticos de apelo social mais amplo.

Assim a partir da edição de 15 de dezembro de 1889, data da proclamação da República, Senhorinha alterou o nome do seu jornal para O 15 de Novembro do Sexo Feminino, marcando uma mudança no tom da mensagem que passou a incluir a defesa do voto das mulheres.

A trajetória de Senhorinha revela os passos da geração de mulheres que acompanhou atentamente as mudanças políticas vividas pelo país. Houve aquelas que simpatizaram com a causa republicana e se engajaram na campanha pela queda da monarquia, e um número maior ainda se engajou em ações em prol da abolição da escravidão.

Com a mudança do regime político cresceram as suspeitas entre as mulheres dos setores médios de que a República não pretendia incorporá-las no rol dos cidadãos.

A partir daí, as editoras de jornais femininos buscaram chamar atenção para a injustiça do fato das mulheres não serem convidadas para o banquete da República, logo elas que haviam colaborado com tanto empenho pela causa.

A Família

Josefina Alvares de Azevedo nasceu em Itaboraí, interior fluminense. Em 1888, fundou o jornal A Família que alcançou muitos leitores e contou com a colaboração de importantes ativistas do movimento feminista da época. Elas se batiam, sobretudo, pela extensão do direito de voto às mulheres. A Família conseguiu a façanha de circular por quase dez anos.

A editora Josefina Alvares de Azevedo foi uma mulher que viveu intensamente os acontecimentos da campanha republicana e a consolidação institucional do novo regime. Fez do seu jornal A Família, fundado em 1888, um canal exemplar para expressar suas inquietudes.

Fosse por origens familiares, fosse por uma formação política que a aproximou das lideranças mais radicais do movimento republicando, o fato é que, comparando com a linguagem política adotada por Senhorinha, a sua era mais ousada.

O que denota também a pluralidade das expressões do pensamento feminista no período. Embora Josefina e Senhorinha concordassem com a importância da disseminação do acesso à educação entre a população feminina, Josefina enxergava na educação mais um instrumento para a conquista de direitos civis plenos, ao passo que Senhorinha considerava a educação como um fim em si mesmo.

Quando tratavam da conjuntura política, Josefina não perdia a oportunidade para se posicionar criticamente em relação às manobras do Governo Provisório, visando reduzir a participação popular na institucionalização do novo regime.

Senhorinha, por sua vez, preferia mencionar os avanços alcançados pelas nações civilizadas no terreno dos direitos femininos, apelando à razão dos políticos para a importância de se garantir o direito de sufrágio também às mulheres.

Os jornais e revistas escritos e dirigidos por mulheres, da segunda metade do século XIX estão aí para serem estudados. Eles permaneceram como um terreno fértil à espera de pesquisadores garimpeiros que se proponham a revisitar o universo e valores do imaginário feminino nos primórdios do feminismo no Brasil.

Basta uma vista-d’olhos sobre eles, para percebemos a pluralidade de seus discursos e as sutilezas de suas opções.

* Texto elaborado a partir de pesquisas de Teresa Novaes Marques, Hildete Pereira de Melo e Carnen Alveal.

Publicado originalmente na revista Abrealas, da REDEH, sob edição de Schuma Schumaher.

Ouça Ô Abre-Alas de Chiquinha Gonzaga:

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2 respostas para “Senhorinha e Josefina”

  1. Silvana Moura disse:

    Texto maravilhoso, Fernanda.

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