Princesinha da República

Para muitos ela é uma cidade dentro de outra. Para os mais fanáticos, um planeta. De fato é um dos lugares mais famosos do Brasil. Mesmo…

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Para muitos ela é uma cidade dentro de outra. Para os mais fanáticos, um planeta. De fato é um dos lugares mais famosos do Brasil. Mesmo quem nunca a viu, sabe de Copacabana!

A face mais conhecida do bairro, sem trocadilho, é a solar. Copacabana da praia, da areia macia, da bossa nova, do mate gelado, da água de coco, da calçada com desenho de ondas.

A outra é noturna. Copacabana do sexo rápido e pago, dos cafetões, dos inferninhos, do éter, lança-perfume, cocaína. Dos larápios mirins e marmanjões, da bala perdida. Copacabana das ressacas dos bêbados e do mar.

É o bairro com o maior número de fãs por metro quadrado. Meu pai me contou a história de uma bancária que morava no Copacabana Palace: Ela consumia todo o salário mais uma renda extra para morar no cartão-postal. Pagava o preço de almoçar e jantar bananas.

Cinema, rádio, tv, jornais, revistas, livros, internet não se cansam de contar Copacabana. Quase todo mundo tem uma historieta com ela. Mesmo que seja a ter passado um único dia em suas areias.

O auge do bairro se deu antes de Brasília. Quando o Rio de Janeiro, capital federal, era o centro da vida cultural e das mídias. Também da intriga e da movimentação política.

Pois anote: 5 de agosto de 1954. Na rua Toneleros, 180, em frente ao prédio em que morava, Carlos Lacerda sofreu um atentado. Saiu ileso, mas o seu segurança major Rubens Vaz levou dois tiros. Morreu na hora.

A sequência do episódio todo mundo conhece. Lacerda acusou o presidente Getúlio Vargas de conivência com os atiradores. Crise total. Dezenove dias depois do atentado da Toneleros, Getúlio saiu da vida para entrar num caixão. Ops! Para entrar na história.

Além de Lacerda, moraram em Copacabana: Benedito Valadares, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Café Filho, Carlos Luz, Tancredo Neves, Magalhães Pinto, Nereu Ramos, Armando Falcão, general Lott – o da espadinha.

O jornalista Claudio Bojunga, na sua magnífica biografia JK – o artista do impossível, escreveu: Nos anos 1950, todas as luzes se voltavam para o palácio do Catete, mas os scripts eram escritos em Copacabana.

Diga-se a verdade, scripts de golpes e contragolpes. Mas ainda bem que o lugar escreveu outras páginas. Ruben Braga fez o seu Ai de ti, Copacabana!. Nelson Rodrigues pôs o bairro em muitas de suas crônicas. Todas magníficas.

Termino citando o poeta que virou estátua na orla de Copa. O mineiro Carlos Drummond de Andrade. Aquele que pôs a cidade natal – Itabira – pendurada na parede. Aquele que escolheu Copacabana para se inspirar e, generosamente, nos encantar.


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3 respostas para “Princesinha da República”

  1. […] primeiros mercadores carregavam os produtos em uma vara apoiada nos ombros. Até hoje nas areias de Copacabana ou da Praia Grande é possível ver homens e mulheres carregando cangas, pendrives e bonés em […]

  2. Marisa Paifer disse:

    Só muda o calendário, Fernanda!
    Bjs.

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