Pequenas felicidades

Imitei a pintora que para avaliar o quadro que está trabalhando se afasta para enxergar melhor

Nós na praça. Foto Lucíola Pompeu Nós na praça. Foto Lucíola Pompeu

Para quase todos, chega uma época em que os lençóis não se incendiam mais, em que os espelhos perdem sua generosidade. É quando nos tornamos matematicamente pessoas com o tempo passado mais extenso do que os possíveis anos futuros.

É mais ou menos nesse degrau de vida que passamos a prestar atenção nas pequenas felicidades. Aquelas que nos abraçam mansas e despretensiosas. Elas nem batem à porta, vão entrando com a intimidade das sandálias velhas.

Se comparássemos a um gênero musical, a pequena felicidade seria mais bossa nova do que samba. Mais música de câmara do que sinfonia. Também seria mais igrejinha de bairro do que catedral. Mais lojinha de esquina do que lojona de shopping.

De alguma maneira, penso que precisamos envelhecer para notar e valorizar o detalhe, a meia palavra, a atmosfera. Talvez isso ocorra porque os olhos já quase tudo viram, os ouvidos escutaram risos e dores. E a boca muito falou, muito beijou, muito calou.

Faz 4 anos, tive essa experiência de felicidade. Aconteceu na praça Vicentina de Carvalho, na paulistana Vila Madalena. Estávamos eu, meu pai, minha mãe. Ele com 83 anos. Ela, 80. Eu, mocinha, com meus 57.

Irei descrever a cena. Meu pai sentado na cadeira de rodas, minha mãe, ao lado dele, sentada numa cadeirinha desmontável. Os dois debaixo de uma frondosa árvore. Réstias de sol iluminavam os rostos e os olhos deles.

Imitei a pintora que para avaliar o quadro que está trabalhando se afasta para enxergar melhor. Foi o que fiz, me distanciei alguns metros. Daí pude ver a mulher e o homem vividos,  agridocidados pelas experiências. Será que sonhando nuvens?

Estavam tão plenos! Exatamente montados no presente. Ao contrário de mim, não tinham nenhuma agonia de agendas e relógios. Eles apenas olhavam para o sutil bater do vento nas flores de um manacá.

Só isso? Entendi que era tudo isso. A vida se apresentando sem artifícios, sem subterfúgios. Nua. Presenciá-los sentados em suas cadeirinhas, entregues à concretude do instante, me encheu de felicidade. Da grande felicidade.

Leia o começo desse casamento em Taubaté


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9 respostas para “Pequenas felicidades”

  1. Ivana Lopes disse:

    Texto muito lindo! Fiquei emocionada. Esse momento registrado em foto, no texto e na sua memória é a imagem da plenitude de uma vida bem vivida. Lindo!

  2. Marisa Paifer disse:

    Bravo, Fernanda! Mais um belo texto dessa sua lavra sensível, poética e precisa. Com delicadeza peculiar você tece a história que é a sua e também a nossa. Sentimos que você nos inclui no mundo e não estamos sós. Grata mais uma vez. Grata, grata. Bjs.

  3. Erik Araujo disse:

    Fernanda,
    Sensacional.
    Forte abraço.

  4. Silvana Moura Moura disse:

    Bom dia, Fernanda.
    Que suavidade de texto! Lindo de imaginar.
    Abraços

  5. […] o envelhecimento é dádiva para os que não morreram prematuros. É uma fase, entre tantas, da vida humana. Se crianças têm suas fabulações; adolescentes, suas descobertas; […]

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