Passagem para o Mar

De repente aos trinta e oito anos, mais precisamente numa manhã de seus trinta e oito anos, Marina despertou como o desejo insurgente de ver o…

Imagem: Régine Ferrandis Imagem: Régine Ferrandis

De repente aos trinta e oito anos, mais precisamente numa manhã de seus trinta e oito anos, Marina despertou como o desejo insurgente de ver o mar.

Mirar o dragão de sal que em vagas elétricas apaixona sua alma. O mar lhe foi revelado não pelas leituras de Joseph Conrad, mas pela inocente observação do curso dos rios.

Sim, se os rios correm para o mar, as águas amargas são a origem dos rios, porque tudo que é procura sua origem. Marina quer agraciar-se com a espetacular e reveladora visão do avesso continental, o oceano.

Conhecer este que imagina o deus dos humores, com marés baixas e altas, calmarias, tempestades, profundidades, bancos de areia.

Uma vez alguém lhe contou que o mar, a exemplo do céu, tem suas estrelas. Durante noites pensando nelas rolou insone, depois dormiu e sonhou presságios em forma de conchas.

Em três décadas e oito anos, devido a circunstâncias geográfica e social, seus olhos jamais fitaram a pupila azul do oceano.

O magnífico odor da maresia não foi apresentado ao seu nariz, seus cabelos nunca foram embaralhados pela brisa marinha. Ausência que acirra a libido, por ter terra terra, anseia água água.

Marina é herdeira de uma tradição de montanhas altiplanos planícies desertos e grandes árvores. Sua mãe nasceu na Bolívia, seu pai no Paraguai.

Ela vem de gerações sedentas de sal, gerações com a nostalgia do mar. Nos carnavais da infância se vestia de marinheira. É verdade que no meio do campo, dias distante do litoral, ela tendia mais para uma grumete dadaísta.

A queda pelas águas revoltas teve seu début na tarde que Marina esquadrinhando um mapa-múndi, percebeu, de golpe, que os oceanos eram o firmamento dos continentes.

Nesta manhã, ela desperta com a necessidade premente de ver o mar, nem um minuto adiante nem uma hora atrás.

No mostrador do relógio de pulso: uma nau se desenha. Tal é a força do êxodo, que Marina troca o canto do galo prenunciando a alba pelo uivo de um petroleiro abrindo passagem numa baía imaginária.

Ela traz nos sulcos da mão o artesanato da terra, no destino, a vocação pela agricultura. Desde sempre a enxada foi sua flecha, o ancinho o arco, a colheita o alvo. Seu horizonte: a montanha.

Marina adubou anos buscando a bola de cristal que lhe contasse o mundo. Agora ela mói passa sorve o café, decide que está a caminho do grande mar. Irá estreitar no corpo as espumas das águas, lamber a língua do dragão de sal.

Foi. Caminhou sob sóis e luas, traspassou a densa Amazônia. Nomeou os peixes dos córregos, os trezentos tipos de orquídeas, as temerosas cobras, os astros do cosmo.

Almoçou aipins. Duendes aborígenes a avistaram. Trilhou – sem álcool sem gasolina sem energia nuclear – movida à determinação. Com gula do absoluto.

O coração-bomba retroalimentou os neurônios que agiam como timoneiros orientando a viagem, pulando ciladas, ditando o itinerário que a transportava do interior à superfície, da fronte do planeta ao seu perfil.

Como o salto da vida para a morte, instante quase imperceptível que em que a luz vira penumbra, na velocidade que a bala sai pelo cano do revólver e que os ponteiros disparam no tempo, Marina se encontrou entre fileiras de bananeiras.

Corredor anunciando o litoral, a camponesa conquistando seu direito ao mar. Saltita paralelo à orla um vulto, no rosto estampadas epifanias, na ponta dos olhos travessias.

Marina experimenta o mar tal qual o primeiro fio de tessitura prova o tear. Então para e se curva, com um graveto sinaliza epigramas na areia. Ela contempla a linha do horizonte que o alto mar engole, ausculta no subterrâneo abissal metrôs inaugurais.

No balé das ondas: o prólogo no epílogo, o fim no começo. Mandala perfeita. Frenesi estético: Van Gogh Manet Cézane Tarsila Picasso Benedito Calixto criaram ancoradouros canoas quebra-mares arrecifes. No entanto, nenhum logrou com a maestria de sua arte expressar o ser do oceano.

Marina compreende que nem o Amazonas, a Cordilheira Andina, o astro-rei, seu próprio coração igualam em poder e galhardia a performance deste pavão azul. O mar capaz de rivalizar até mesmo com o céu e, em duelo, arrebatar as estrelas.

Me chamam Marina, ostento incrustado no meu nome o próprio mar. Finalmente, estamos frente a frente. Como o conde de Lautréamont, eu Marina, a camponesa, te saúdo velho oceano!

Por mais que o tenha imaginado, devo confessar, és inenarrável – como tudo quando deveras profundo. Tua superfície é manto vibratório sobre mistérios enigmas esfinges cavernas colossais. Tudo em ti pulsa. És, ao mesmo tempo, a casa do molusco e da baleia.

Acaso tens um coração submarino que sente através das ondas? Oceano, deves ter muita sede, tragas num só gole de cólera, náufragos embarcações tesouros em prata e ouro fuselagem de discos voadores.

Tua indiferença aos dramas humanos só se compara ao volume da massa de tuas águas. Alguns homens represam o destino dos rios, mas contigo não podem.

Ouvi histórias de barragens erguidas contra tua fúria e por sua fúria destruídas numa única noite. Hoje, a estupidez ousa despejar em tuas entranhas lixo atômico, não duvido que numa ressaca, ao invés de espuma, tu devolvas um cogumelo incandescente.

Eu te saúdo, doce oceano! A montanha pede que amemos sua firmeza, enquanto amar a ti é iniciar-se na vertigem dos movimentos.

Podes tudo e com todos. O único que não podes, oceano, é pensar. Talvez aí repouse o princípio de tua superioridade.

De repente aos trinta e oito anos, mais precisamente numa manhã de seus trinta e oito anos, Marina despertou com o desejo insurgente de ver o mar.


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