Paris – Encontros inesperados

Na galeria, no coração

Fonte Galeria Jaqueline Martins Fonte Galeria Jaqueline Martins

Engraçado. Passados 40 anos, todavia carrego a ECA – Escola de Comunicações de Artes da USP – dentro de mim. Foi uma experiência brilhante na minha vida. Não por conta das aulas e matérias, pois já naquela época existia o descompasso entre academia e vida real. Havia a ideia de que o mercado era sujo e o saber dos livros, sagrado. Aliás, esse preconceito prejudicou a vida adulta de toda a minha geração.

Mas houve algo sagrado sim. Os amigos feitos pelos corredores da Escola e no coração pujante do Centro Acadêmico Lupe Cotrim. Dentro do Centro Acadêmico fazíamos política e artes. Conjugávamos com maestria o Abaixo da Ditadura com Manifestos dos Modernistas e dos Surrealistas. Leon Trotski, Vladimir Maiakovski, Oswald de Andrade, André Breton eram nossos oráculos.

Dos amigos dessa época, alguns seguem no meu convívio até hoje. Gente que eu acompanho e que me acompanha. No entanto a maioria deles – como é natural – são seres da minha memória. Sempre que a lembrança vem, chega com carinho e respeito. Uma meia dúzia já morreu. Houve mortes precoces causadas pela Aids (antes do coquetel) e outras mais recentes carimbadas por corações que param de repente.

Entre esses seres da memória, está o Hudinilson Jr. (1957-2013). Ele, estudante da FAAP, vivia na ECA. Também era da turma dos que não davam muita bola para a política – ao menos para a militância organizada da Liberdade e Luta – tendência estudantil hegemônica na ECA daqueles anos. Lembro dele muito magro, com cabelos compridos e negros. Também levava um chapéu branco na cabeça. E, registra-se, um sorriso largo como o mundo.

Hudinilson junto com Mario Ramiro e Rafael França – este morto aos 34 anos – criaram o Grupo 3NÓS3. A proposta era realizar intervenções urbanas. Uma delas foi pôr capuzes nas estátuas de Sampa. Mas foi a produção individual do Hudinilson que mais chamou minha atenção. Estávamos no final dos anos 1970. Ele passou a fazer xerox do próprio pinto. Foi um pioneiro na arte-xerox e um corajoso na autoexpressão.

Hudinilson fazendo arte

Fonte Galeria Jaqueline Martins

Digo que ao ver as cópias xerox do pinto do Hudinilson, fiquei meio chocada. Não escandalizada, mas inibida. Então eu pensava: Que egocentrismo é esse? Mas ele ao contrário da maioria de nós, estudantes de artes, sempre se proclamou artista. Sempre reivindicou a liberdade absoluta de expressão. E seguiu trabalhando cópias do seu sexo e outras partes do corpo nu. Batizou a série como “Exercícios de Me Ver”.

Depois rompeu-se o contato. Cada qual perdeu-se por outros cantos e experiências. Mas, volta e meia, alguém dava notícias do Hudinilson Jr: Continua fazendo arte. Segue fazendo da fotocopiadora a sua palheta. Soube que ele conseguia expor aqui e ali. Enfim, vivia fazendo arte e tentando viver dela. Até que li a notícia que ele havia morrido. Tinha 56 anos.

Vida é água que rola rápido debaixo das pontes. Daí fui me lembrando cada vez menos dele. Isso até a semana passada. Andando por uma ruela do Quartier Latin em Paris, dei de cara com uma exposição do antigo colega. Fiquei surpresa e alegre. Tive uma sensação de vitória dele, vitória do artista. Voltei a visualizar seu sorriso. Uma vozinha sussurrou: do xerox da Eca para uma galeria em Paris. Puxa, o Hudinilson conseguiu!

Brinde

Leia também Paris – Grafite


Tags: , , ,

Comente

11 respostas para “Paris – Encontros inesperados”

  1. Marisa Paifer disse:

    Texto saboroso, Fernanda!
    Se ele nao acreditasse em si, quem acreditaria?
    Nadar contra a correnteza dá trabalho!

  2. Bel Santos Mayer disse:

    Que texto mais, mais… Fernada Pompeu, Fê.
    Que surpresa boa. Espero que Hudinilson Jr. tenha se visto reconhecido muitas outras vezes.
    E que de alguma forma, em algum lugar, este ritual de leitura e de escrita arranque um sorriso dele.
    Bjks com saudades

  3. […] para os passeios e era meu olhar quem elegia o assunto. Particularmente forte foi escrever o post Paris – Encontros Inesperados. Uma vitrine no Quartier Latin me fez voltar 40 anos em mim mesma. Um amigo quase esquecido, […]

  4. Bel Petraglia disse:

    Emocionante! Seus textos, Fernanda, são sempre um deleite! Obrigada e parabéns! Beijos

  5. Silvana Moura Moura disse:

    Maravilhoso esse texto! Aliás, seus textos conseguem me levar a diferentes lugares e me fazer sentir cheiros, cores e emoções.
    Parabéns! E parabéns pelo seu dia!
    Abraços.

  6. […] de pensamento e rivalizamos com outras propostas. Tiro o exemplo por mim. No final dos anos 1970, estudante da ECA, fiz parte do grupo estudantil Liberdade e Luta de inspiração […]

Deixe uma resposta