Paris – Em busca do pai

Vale do Silício Literário

Foto Fernanda Pompeu Foto Fernanda Pompeu

Para muitos da minha geração vir a Paris é sempre uma volta. Uma busca às principais referências do século 20. Grande parte dos escritores, artistas, intelectuais influenciadores pisaram nessa cidade. Flanaram entre cafés, metrôs, jardins. Paris ainda cheira à máquina de escrever, ateliê de desenho, guardanapos manuscritos espalhados pelo bolso.

As vanguardas artísticas do século passado, por exemplo, o dadaísmo (nascido em Zurique) e o surrealismo propuseram suas rupturas falando francês e escrevendo manifestos nas mesinhas dos cafés – que irrompem a cada esquina. Também a psicanálise, a antropologia, a sociologia, a linguística marcaram encontros nas paisagens daqui.

O argentino Julio Cortázar (1914-1984) não teria escrito o belo que escreveu sem Paris. Cem anos de Solidão do colombiano Gabriel Garcia Marquez (1927-2014) não teria feito o furor comercial que fez sem a aprovação da crítica literária francesa. Hoje Gabriel dá nome a uma pequena praça na Rue Montalembert. Acrescente o poeta peruano César Vallejo (1892-1938) – enterrado no Père-Laschaise. Paris foi um Vale do Silício literário.

Quando estive aqui pela primeira vez, minha amiga Régine Ferrandis aprontou um presente. Do aeroporto ela me levou direto para um tour aos monumentos. Arcos, torres, estátuas, rio, margens. Depois almoçámos em La Defense que então me pareceu – de maneira impressionante – futurista. Nas outras vezes que voltei, o primeiro beijo com a cidade foi parar na memória. Mas rever tudo segue emocionando.

Mas, de maneira bem pessoal, não busco só pelos cafés, museus e jardins. Procuro também pelo meu pai. Pois em todas as viagens, ao aportar nos lugares, sempre telefonava para ele contando: Pai, estou em frente ao Arco do Trunfo. E ouvia do outro lado informações melhores do que de qualquer guia de viagem.

Pai, estou em Campina Grande e quero saber por que tem a palavra Nego na bandeira da Paraíba. Ele explicava com mais colorido e paixão do que o Google. Papai amava as histórias coletivas. Foi um leitor de jornais por toda a vida. Uma vez me disse que havia aprendido muito de História lendo a imprensa (ele gostava dessa palavra).

Eu lendo jornal ao lado do pai

Herdei dele o amor aos jornais

Vendo em retrospectiva meu pai foi um habitante do mundo Gutenberg, do mesmo jeito que jovens e crianças atuais habitam o ambiente digital. Paris da página impressa ainda não caiu, pelo menos não totalmente. Apesar a dramática diminuição de leitores (de impressos) nos trens de metrô, todavia resistem livrarias e sebos. Todavia há edições primorosas de livros primorosos. Resta saber até quando.

Brinde

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13 respostas para “Paris – Em busca do pai”

  1. Marisa Paifer disse:

    As viagens são sobretudo pra dentro. Que bom que seja assim, pois revemos recantos inesquecíveis!

  2. Pepeu Andrade disse:

    Muito lindo. ….

  3. Magaly Marques disse:

    Gostei

  4. Urivani disse:

    O impresso resistirá enquanto tiver quem escreva bem ,as pessoas acreditam na boa escrita e compram pelo prazer de desfrutar de uma boa leitura.Só acho!

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Urivani, repare que com a internet as pessoas continuam querendo desfrutar da boa leitura, mas não querem pagar para isso. Esse é o nó que enforca escritores e editores profissionais. Daí terá surgir um novo modelo. Qual?

  5. Urivani disse:

    As pessoas acreditam na boa escrita e compram pelo prazer de desfrutar de uma boa leitura.Prefiro crer que a escrita impressa resistirá.

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