Olha só

Escrita automática com cadáver esquisito

Obra do coletivo Les chats pelés, Paris. Foto Régine Ferrandis Obra do coletivo Les chats pelés, Paris. Foto Régine Ferrandis

Mais uma escrita automática misturada com cadáver esquisito. Duas técnicas surrealistas que eu e a Marilda Carvalho aprendemos e praticamos na nossa juventude, nos corredores da Escola de Comunicações e Artes da USP e no grupo Viajou sem Passaporte. Ademais os surrealistas levavam muito a sério o lúdico na escrita. Estou torcendo para que a leitura seja também prazerosa

Fernanda Pompeu
Está vendo ali em frente? Pois era uma estação de trem. Construída no melhor estilo inglês. Dizem que o ferro, e até os tijolos, vieram em navios da Grã-Bretanha. A embarcação atracava no porto de Santos e subiam o material no lombo dos burros. Acredita não? Mas foi. No saguão da grande estação havia um relógio-carrilhão. A escadaria era de mármore comprado na Itália. Tudo muito chique. Agora a grande sensação era um aquário. Este ficava à esquerda da entrada principal. Uma belezinha. Tinha gente que entrava na estação só para admirar os peixinhos. Se eu vi tudo isso? Não! Quando eu nasci a estação já era esse nada que você está olhando.

Marilda Carvalho
Eu olho na faixa cinza e marrom da beira-mar onde o azul fica pra trás. E me aborreço. Hoje o dia está pro cão. Vi tanta gente miúda, barriguda, peituda, feia. Até as pombinhas me pareceram tristemente vira-latas na sua mendicância pelo milho cozido que a gente, os outros, deixa na areia da praia. Acho que a desavistação, esse jeito de ver o feio, começou com o papo com as Margaridas, aquelas mulheres que limpam a praia logo cedo. Nos encontramos ao pé da cadeira da salva-vidas e o papo foi sobre como as pessoas jogam tudo no chão. Nesse espaço livre, público, generoso, elas cospem. Foda-se. Nada mudou. A polícia entrou com a camionete na areia. A prefeitura tirou os saquinhos de lixo azul distribuídos antes. Eu não sou responsável. Eu meto o pé na jaca.


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