Ninguém como Ruth

Foto Fernanda Pompeu Foto Fernanda Pompeu

Meu nome é Ana Albuquerque, 56 anos, solteira, metade preta, metade branca. Trabalho à noite, com uma folga semanal, nesse hospital que tem a população de um bairro. Seis mil pessoas, das faxineiras ao diretor. Celetistas e terceirizados. Vivo em um país onde os habitantes se apartam entre os com plano de saúde – detentores de prioridades e os sem-plano – excluídos de prioridades. Os sem-plano, apesar de copiosa maioria, são vistos pelos os com-plano como compatriotas que não souberam fazer a coisa certa, na hora exata, no lugar propício. Olhavam para uma margem da vida, enquanto a oportunidade trotava na margem oposta.

– Vou levar a Ana pra minha casa.
Ótimo, ela está mesmo de férias na escola. No fundo, essa menina parece mais sua filha do que minha.
Ana adorava ir com a tia. Amava a mãe, mas era diferente. Na companhia da irmã da mãe, ela se sentia maior do que os seus oito anos. Tia Ruth sempre perguntava pelo pensamento de Ana: Se você pilotasse um barco para qual porto iria? Hamburgo, Vitória, Valparaíso? Ao contrário da mãe, a tia ouvia a resposta: Eu iria para a África procurar pelos bisavós do papai. Ruth ria: Eles já devem ter morrido! A menina retrucava: Mas as montanhas, as florestas, as cidades em que eles viveram ainda estão lá. Ana adorava comentar as coisas do mundo. Ruth dizia para a sobrinha: Esse estado infantil é a autêntica poética do instante.

O emprego no hospital me salvou da pindaíba. Eu estava devendo três meses de aluguel, seis de condomínio. Por toda vida fui joalheira. Comecei independente, vendendo meus trabalhos pelas praias do circuito-coco-dólar, pelos hotéis do turismo elegante. Lidei com prata, ouro. Engastei gemas preciosas e semipreciosas em metais nobres e plebeus. Estudei. Sabia de cor os efeitos terapêuticos de cada pedra. Para voltar a se apaixonar? Compre esse pingente granada. É a pedra do fogo, guardiã do amor, estimulante do sexo. Uma vez, reencontrei um homem que agradeceu-me um anel carneol-cornalina esculpido e vendido por mim. Segundo garantiu, a energia do mineral-gema o tinha curado de uma gastrite crônica. Fiquei feliz.

Na ponta do lápis, Ana passava parte significativa do ano com a tia. Eram com Ruth os sábados e domingos, os dias santos e pátrios, as pequenas e as grandes férias. A atração mútua entre a menina e a mulher não obedecia a nenhuma razão, simplesmente as duas almas confraternizavam. Nos anos da infância de Ana, mulheres acima dos 27 anos eram assim classificadas: casadas ou solteironas, virgens ou putas. Ruth não se deixava etiquetar, dava de ombros para as convenções. Suas quatro irmãs haviam se casado e parido, no total, uma dezena de crianças. Além de não ter se casado e nem dado à luz, Ruth dormia com os seus namorados.

Depois de anos de liberdade de espírito e ação, me empreguei em uma grande joalheria. Transnacional, leia-se, matéria-prima e mão-de-obra internas, capital e lucro externos. Eu trabalhava na oficina dos artesãos. Não podíamos criar nada, o desenho das peças vinham fechadinho da matriz em Londres. Nós executávamos instrução a instrução. No princípio do ofício, tracei alguns planos, jurei não abrir mão de um trabalho próprio, não me acomodar, não engordar. Fui infiel a todas essas  promessas. Manhã e tarde no batente foram suficientes para me esvaziar. Passei a sofrer de melancolia degenerativa, mas o salário garantia o pagamento das contas e a compra de alguns prazeres. Até que fomos demitidos. A empresa havia mapeado um país com mão-de-obra ainda mais barata. O dinheiro da indenização fugiu como bola de futebol no pé de um mau jogador.

Ana auscultava em Ruth, qualidades especiais. Por exemplo, a independência econômica. A tia costurava para fora, concebia e realizava vestimentas. Se a freguesa chegasse sem ideia, ela apresentava cinco alternativas. Na sala de estar, sua máquina de costura era uma ilha cercada de carretéis, linhas, agulhas, colchetes, régua, esquadro, fita métrica. A sobrinha passava horas sentada em um banquinho, ao lado da tia, seguindo a conversação das mulheres. Ela soube que muitos maridos tinham amantes e muitas esposas fingiam ignorar. Ouviu: Algumas se casavam para se livrar do autoritarismo paterno ou da magra comida na casa de origem. Surpreendeu-se com outras: Vou tirando dinheiro de pouquinho em pouquinho e ele nem se dá conta. A garota inferiu que um feliz casamento era tão acidental quanto ganhar no jogo do bicho. Pela noite, na mesa de jantar, Ruth advertia: Não acredite em tudo que você ouve e ponha fé: uma mulher não nasce predestinada a nenhuma prisão, nem do casamento nem da solteirice.

Sem o emprego na joalheria, voltei a trabalhar por conta. Reanimei o sonho de desenhar minhas próprias peças e de expressar-me em bronze, prata e ouro. Rearranjei a sala do apartamento, me desfiz da vitrola e de um móvel-bar, dando adeuses também aos discos de vinil e à bebida. Pus a bancada de ouvires em frente à janela de onde eu avistava o Cristo Redentor de perfil. Mergulhei na esmaltação, gravação e cravação. As praias e as montanhas continuavam apinhadas de turistas: eram os filhos, com a mesma mentalidade dos pais, ansiosos para confirmar seus estereótipos mentais do que seria esse povo anfitrião: selvagem, suado, feliz? Seguiam dispostos a consumir o exótico. A propaganda ajudava: Nossas gemas têm mais brilhos, mais cores, mais energias. Mas deu tudo errado: eu já não tinha pernas nem ilusões. Até tentei, aluguei uma barraquinha na feira hippie de Copacabana. Inúteis domingos. Ganhava tão só para comer.

No meio das férias, Ana notou a tia um tanto aérea, com os pés centímetros acima do asfalto. Às vezes, Ana falava e ela não ouvia. Seja por intuição ou por ciúmes, a menina relacionou a ansiedade de Ruth com Guido. O novo namorado da tia saía cedo sem trocar palavras. Na real, não trocava nem olhares com a garota. Ele acha que eu sou filha de vidraceiro? Invisível? Ruth punha panos quentes na indelicadeza de Guido. Dizia ser o jeitão dele, afirmava tratar-se de um homem bom: Ana, o que interessa é a qualidade das pessoas, não importa se elas têm ou não palavras, conta o quanto de coisas boas elas carregam dentro do coração. Então, numa madrugada, pé ante pé, a menina se aproximou da cama do casal e encostou o ouvido no peito de Guido. Deu razão para tia, tratava-se de um gordo coração, porque ela escutou retumbantes pum! pum! pum!

Quando entrei em rumo de colisão com o desespero, acumulando contas não pagas e fazendo dívidas, apareceu um velho amigo, enfermeiro padrão, noticiando uma vaga no escritório do Hospital Central. Serviço burocrático com carteira assinada. O teste foram questões gerais: Qual a capital do Iraque? / Se 2 pessoas compram 6 laranjas, quantas laranjas serão compradas por 5 pessoas? / Por que a palavra sólido leva acento? / Qual a importância para a ciência do conhecimento do DNA das muriçocas? Depois, a entrevista: Ana Albuquerque, o que você espera desse emprego? Respondi: Ajudar as pessoas e receber o meu salário em dia. Fui a escolhida. Passada uma semana, xeretando na internet, descobri uma pesquisa comprovando que as empresas preferem funcionários objetivos.

Guido vinha dos pampas onde se criavam cavalos para a montaria, gado para o corte, meninas para a obediência, meninos para o mando. Onde, ao redor de fogueiras em noites enluaradas, se contavam histórias de antes do antes. Para escapar da vida rural, ele dedicou-se a profissão de sapateiro. Ruth e Guido formavam um casal de trabalhadores. Assim como ela tinha intimidade com o algodão e o linho, ele sabia os segredos do couro e da napa. De segunda a sábado, o antigo peão de estância era explorado em um curtume. Um domingo, os três foram jogar miolo de pão para os patinhos num lago da Quinta da Boa Vista, tia Ruth disse alto: Ana vai estudar para no futuro trabalhar com a cabeça! Guido retrucou: Largue de sonhar, em pouco tempo ela enrabicha com o primeiro malandro, engravida e adeus estudos. Ruth se zangou: que ele parasse de predizer pesadelos.

No Hospital Central, trabalho no setor de internação da maternidade. Digito nome, RG, CPF, endereço e telefone. Também distribuo o pacote mamãe nas versões rosa e azul para aquelas que já sabem o sexo da criança. Para as que desconhecem, circunstância rara, distribuo o mamãe branco. Dentro do pacote, cosméticos para o bebê, sabonete e shampoo neutros, óleo para o asseio do umbiguinho, pomada para umedecer a bundinha. Gosto de observar as gestantes. Na entrada: tensas, temerosas, emocionadas. Na saída: tensas, temerosas, emocionadas. A diferença é que ao deixarem o hospital, carregam com muito esmero uma trouxinha rosa ou azul.

Aquela noite foi de um calor infernal, trinta e oito graus sem brisa. A pequena Ana, insone, rolou um tempo na cama e de repente adormeceu. Mas despertou com gritos da tia: Não faça isso! Para! Ouviu o vozeirão de Guido: Cala a boca! Fecha essa matraca! Ana correu para o quarto da tia Ruth, pálida de medo, presenciou: o punho do homem deferir em linha reta um soco no rosto da mulher. Ruth caiu com o nariz quebrado. Desmaiou. Ana abraçou a tia e implorou: Não morre! Não morre! O sapateiro, como um dançarino virou os calcanhares, deixou para sempre a casa, a mulher desfalecida e a menina em soluços.

Eu nunca quis ser mãe! Pinturas da Virgem segurando o menino Jesus, stabat mater cantados, fotografias de redondos ventres, relatos de felizes gestantes nunca me comoveram. Assim como me encheram de terror o sofrimento das mulheres que perdem suas crias nos holocaustos, nas explosões atômicas, nas correntes migratórias, nas guerras medievais ou ultramodernas. A dor das mães – que tiram comida da boca para alimentar crianças condenadas pelos fundamentalismos religioso e de mercado. Tudo isso serviu para que eu enxergasse a maternidade como uma responsabilidade acachapante.

Ana, volto à noitinha. Essa foi a última vez que a garota viu a tia. Ao chegar na clínica, a recepcionista conduziu Ruth para dentro do consultório. Dr. Laerte era um homem almoçado pelos anos e jantado pelo cansaço. Ruth deitou-se na posição indicada pela enfermeira. Então percebeu, não sem assombro, que as mãos do médico tremiam. Ela ensaiou um grunhido, a enfermeira fez psiu levando o dedo indicador aos lábios. O médico aplicou o anestésico. Ruth escutou as ondas da praia na Fortaleza de sua infância. Antes de se envolver em um fulgurante clarão, ouviu o comentário do Dr. Laerte: Abrem as pernas e depois reclamam.

O melhor do emprego no Hospital Geral é que chego em casa de madrugadinha e não sinto vontade de dormir. Passo um café e aproveito a mente, todavia desperta, para realizar o que tenho prazer. Nesse momento, estou trabalhando em um porta-retrato com moldura de pedra turquesa. Uma beleza. Minha ideia é pôr uma foto da tia Ruth. Ela aparece sorrindo e com a palavra saudade que escrevi embaixo da fotografia. Esse retrato da tia Ruth faz parte do meu espólio emocional. Foi batido semanas antes de sua morte, aos 32 anos, como consequência de um aborto malfeito.

Leia outros contos na coluna Capim Letrado


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6 respostas para “Ninguém como Ruth”

  1. Marisa Paifer disse:

    Quantas Ruth’s no mundo, com ou sem CLT, com noites abafadas ou barracas modorrentas em praças, esperando por um canalha a menos. São Ruth’s que incomodam, porque cansam de carregar o mundo sozinhas.
    Lindo conto. E triste.

    • Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

      Triste, né? Mas essa história, da tia Ruth, foi contada pelo meu pai. Uma tia que ele amava e morreu fazendo um aborto. Peguei o nome, a morte e inventei o resto. Beijo, Marisa.

  2. Urivani disse:

    Conheço várias.Parabéns pelo conto Fernandinha.

  3. Ivana Lopes disse:

    Muito lindo seu conto. Torci pra Ruth acabar bem. Há mesmo tantas Ruths por ai, tão gente boa mas com um final triste.

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