É guerra mesmo que não pareça

Avante, paulistanos!

Foto: Fernanda Pompeu Foto: Fernanda Pompeu

Não é como no Iraque. Não é como na Síria. Mas é guerra mesmo que não pareça.

Falam que a crônica é a mais pé-de-havaiana, rasteira, ralé, carne de segunda dos gêneros literários. Sendo o cronista um mequetrefe, um fichinha, um reserva que jamais medirá ombros com um romancista. Este sim, como doutores já disseram, seria o camisa dez da literatura.

Também falam que grandes temas: amor, morte, inveja, vingança, conquista não se prestam à pena do cronista. A pena cronista estaria condenada a observar e descrever um cão atravessando a rua, um homem à janela, uma senhora numa cadeira de rodas. Enquanto a pena do romancista chegaria perto de uma sinfonia.

Como as asas que Deus me deu são de cronista, vou me socorrer de um poeta, o fabuloso Paulo Leminski, para começar a história. Escreveu ele: Guerra é assunto importante demais / para ser deixado / nas mãos de generais. Parafraseio: Luta é assunto importante demais para ser deixado nas mãos de vencedores.

Para entrar numa guerra não precisa invadir territórios, queimar plantações, envenenar arroios, matar pessoas. Para ser guerreira ou guerreiro não é necessário vestir armaduras, usar óculos de visão noturna, pistolar-se até os dentes. Ao contrário da propaganda da Brahma para a Copa de 2010, para ser guerreiro não precisa ser louco pela seleção brasileira, nem inflar a pança com cerveja.

Guerrear é mais trivial e profundo do que afirmam os compêndios de história ou manuais militares. Esqueça artilharia, cavalaria, força aérea, força naval. Para entrar numa guerra basta ser usuário do sistema metropolitano de São Paulo.

Isso mesmo: basta usar trens e metrô. Não precisa ser no horário do rush, pois nessa cidade toda hora é hora de pico. E entre o vão e a plataforma, de repente, surgirá um trem. Lotado.

Dia a dia, milhões de guerreiros se armam de táticas e estratégias para subir e descer infindáveis escadas-rolantes, marchar em corredores quilométricos, acessar vagões, sacolejar o corpo entre outros corpos.

Ouvir 100 vezes a voz do condutor explicar que a culpa da parada antes da estação, ou do atraso da viagem, é do usuário que segurou a porta, mesmo quando nenhum usuário está próximo da porta.

Isso é ou não uma guerra? Uma guerra diária. Ou como escreveu um outro poeta, severina. Sem condecorações, sem espólios, sem troféus. Guerra que inspirará apenas os cronistas.

Mas há o entusiasmo da vitória quando se chega pontualmente no trabalho ou na escola. O frenesi da vitória quando se chega em casa, e direto para a tv e a cama. Na manhã seguinte, mais um toque de alvorada.

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2 respostas para “É guerra mesmo que não pareça”

  1. Urivani disse:

    Ainda bem alguém que sente o que o povão passa.

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