Berlin-Paris de avião

De volta a Paris

Boa viagem Boa viagem

Ao contrário do trem que me levou de Paris para Berlin, a volta está sendo pelo ar. Sete horas trocadas por um hora e trinta minutos. Mas da janelinha do avião, paisagens são nuvens. Já da janela do trem é tudo cinema. Tudo cobra o seu preço. A velocidade abrevia o tempo suprimindo vaquinhas, matinhos, cidades.

Pra economizar grana voamos pela esayJet – companhia britânica de passagens baratas. Condições: carregar uma única bagagem de mão, pegar o avião no fim do infinito corredor, no último portão de embarque, na pior sala de espera do aeroporto, pagar pela água a bordo. Mas é bom segurar o dinheiro no bolso. Principalmente quando o euro vale quase 4 vezes mais do que o real.

Eu já tive muito medo de voar. Quando não havia jeito de evitar a viagem aérea, dormia mal as três noites antes. Imaginava o avião ora caindo, ora explodindo. Certa vez – faz um tempo imemorial – aconteceu o Festival de Vídeos Feitos por Mulheres em Brasília. Vídeos eram então novidades, dirigidos por mulheres mais ainda.

Na época eu escrevia roteiros e esse Festival me interessava particularmente. De Sampa partiu uma turma grande. Todas as participantes foram pelos ares: 2h de voo. Eu não. Medrosa e sozinha encarei o ônibus e o tédio das suas 16 horas. É claro, havia as paisagens, mas não aquelas que a gente aprecia nos trajetos de trem.

Um dia perdi o medo de voar. Lembro a circunstância: São Paulo – Nova York. Entrei no avião da Varig. Ele decolou, eu senti: Puxa. Está tudo ok. A vida é boa. Voar até que é bom. Aprendi que medos também se perdem. É justo. Afinal, perdemos amores, pai, cidades, amigos, dinheiro, casas, juventude, oportunidades, encontros. Por que então não perderíamos alguns medos?

Escrevo este post – espero de coração que você esteja lendo – neste trajeto de nuvens Berlin-Paris. Um pouco nostálgica por deixar uma cidade tão pulsante. Bastante excitada por voltar a outra cidade tão alegre. Creio que a maior parte das pessoas não fica chateada a caminho de Paris.

Agora o avião começa a baixar. Surgem paisagens rurais. Campos todos semeados. Nem um espacinho para uma manifestação selvagem. Verde claro, escuro. Amarelo pálido, amarelo ouro. Ah, agora uma estrada vicinal com veículos que parecem de brinquedo. As comissárias meio sorridentes verificam se todos estão com os cintos.

Finalmente o pouso no Aeroporto de Orly. Impossível não lembrar da canção de 1970, composta pelo Vinicius de Moraes, Toquinho e Chico Buarque: Vai meu irmão pega este avião, você tem razão de correr assim desse frio. Mas beija o meu Rio de Janeiro, antes que um aventureiro lance mão. Neste entardecer vivo o contrário do Samba de Orly. Desço em Paris. Começo a curtir a chuvinha caindo na cidade. Quero abraçar o Sena.

Bilhete de ônibus Orly

Souvenir de viagem

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4 respostas para “Berlin-Paris de avião”

  1. Ivana disse:

    Muito bom! Viajei no seu texto e com ele.

  2. Marisa Paifer disse:

    Perder o medo é um presente para desfrutar a vida .
    Obrigada por dividir essa experiência! Bjs.

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