15 Me chamo mar

Um Titicaca salgado e exagerado

Foto: Cida Santos Foto: Cida Santos

Me chamo Cá Camila. Me chamo mar. Meu porto de chegada é Veridiana e sei que lá vou fundear. Não interessa a qualidade de obstáculos entre mim e o objetivo: até mesmo o Rubicão, caso se deslocasse para estas veredas de sal, eu o cruzaria. Não importa que a Ilha de Santa Helena, o cabo do Bojador, ou quem sabe a fabulosa Atlântida se intrometam na derrota, no percurso.

Recordo-me instalada na cadeira de balanço do tempo, a mão paralisando o movimento do globo, o indicador apontando o sul da Bahia, a unha encravando em Veridiana. Mas algo sei: se não for capaz de perseguir meu destino, atingir o alvo soletrado pelo acaso, para que viver?

Timoneando errante neste navegar para Veridiana, topei com embarcações que estranhamente não me viram, não responderam aos meus pedidos de S.O.S., como se a nau e eu fôssemos ilusão. Em uma madrugada – com as estrelas histéricas de tamanha luminosidade, narcisas refletindo-se no espelho das águas – assisti ao soçobrar de um vapor de nome Patna.

O Atlântico apresentava a calma dos lagos, semelhando um Titicaca salgado e exagerado. Havia um silêncio de tal intensidade que era fácil prever a iminência de um estrondo. O vapor singrava com espantosa lentidão, a proa mergulhando no mar de almirante.

De repente adverti que espessa fumaça saía da casa das máquinas, logo após surgiam gordas labaredas. A rapidez do evento paralisou-me em um misto de pavor e fascínio; nenhum gesto exerci. O Patna foi a pique como uma bola de chumbo. Então vi “a luz do grande mastro extinguir-se tal cabeça acesa de fósforo, que se deita à água.”

Segundos depois restava o cínico oceano, glutão bem alimentado pelas mil e quatrocentas toneladas do vapor. Silêncio. Até agora e, creio, para sempre terei dúvidas se ouvi ou sonhei os gritos de socorro da tripulação do Patna.

Os dias que se seguiram ao naufrágio foram terríveis, temia que idêntico azar despencasse sobre a exausta nau. Mas uma agonia de ordem física e imediata esmaeceu o medo: a sede. Uma vez consumidos os litros de água mineral comprados no Grande Mercado, usei o expediente de estender minha capa negra, durante os temporais, no convés a céu aberto. Daí torcia-a, recuperando ressuscitadoras gotas de chuva que ávida, sorvia.

No entanto como não há estado da natureza que dure o tempo todo, em seguida veio uma larga estiagem. E a capa de tão seca, engomou-se. Oh, tortura: ter em frente o oceano sabendo que nem uma gotícula de seu generoso volume poderá deter a sede.

Esta inimiga que primeiro ataca a garganta e na sequência dos dias todo o corpo até desidratar a alma. Com as mandíbulas cerradas, passei a desejar mananciais represas rios arroios, inclusive poças d’ água – paradas infectas – , entretanto doces.

Engolia amarga desesperança, quando divisei se aproximando a estibordo um bergantim, que parecia navegar à bolina. Eufórico o coração saltou à garganta, nesta altura petrificada,  fenecida. Com certeza dentro do barco haveria um tonel, uma caneca, um cálice, ou mesmo duas mãos em concha que me oferecessem água. A esperança sorriu seus dentes hiperbólicos.

Bergantim, bergantim! – clamei. A distância não me permitia distinguir direito. Perturbava-me o fato de ninguém responder aos sinais que eu fazia. Consegui entrever as velas rotas, o nome Grampus e algo muito esquisito no compasso de abordagem. Finalmente a nau e o bergantim se acharam lado a lado.

Então uma descarga de emoção por pouco não me atira ao mar: os três tripulantes amarrados em um único mastro, já não pertenciam a este mundo. Não mais se sujeitavam às exigências do caminho, não mais se curvavam às surpresas da rota.

De perto, o Grampus quase não passava de um monte de tábuas flutuantes cobertas por algas e moluscos. Em uma parte do bordo havia cracas que atraíam tubarões. Tremi. Os três cadáveres traziam as mãos dadas, como se diante da morte: a ternura e a solidariedade tivessem explodido entre eles.

Atacou-me a febre: o pulso acelerou, o calor expandiu-se pelo corpo, a temperatura subiu à cabeça. Em desespero inconsolável vislumbrei meu pretérito mais perfeito: Alegria e sua carpintaria. Organsim no seu tear. Estilhaços do lar. A ânsia apaixonada por água de beber e a secura de sua ausência turvavam meu entendimento.

Estirada no convés aguardava um milagre. Entrementes, veio a eclipse da razão exilando a objetividade, delirei.

O luar fez-se gigantesco canhão de luz sobre continentes, quase ao alcance das mãos. Vi sereias se amarrarem aos mastros da nau para resistirem aos cantos de Homero. A bombordo: flutuava a Quimera – que é também leão cabra dragão. As velas içadas da embarcação e o oceano de tão estáticos eram uma fotografia.

Arrastei-me debrucei-me no bordo vi refletido nas águas do mar de azeite: meu próprio medonho rosto enrugado pela sede. Pude compreender que os sonhos são fatos em si e os fatos têm algo de sonhos. Tal entendimento devolveu-me subitamente a razão. Aí aconteceu um milagre: a febre cedeu. Voltei a manejar os truques da realidade.

A voz da razão segredou que peculiar calmaria não iria durar para sempre, que um estado costuma prenunciar seu oposto e cara e coroa são uma moeda só. De fato o céu confabulou com as nuvens: armaram uma revolução no tempo.

Começou a chover.

As velas da nau tremularam quando ventos assumiram a diretoria. No convés: deitada com a boca aberta traguei a água da chuva – bálsamo de vida. O contato das gotas geladas nos meus lábios gretados provocava uma dor funda, mas sabia que esta dor estava me salvando. A sensação de ser um pedaço de agreste torrado e a chuva bendito manancial brotando do coração do deserto, me dizia que não seria desta vez que eu sucumbiria.

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2 respostas para “15 Me chamo mar”

  1. cida santos disse:

    Quanta honra. Valeu! Adoro o Cacamila.

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