11 A viagem começa

Ela parte carregando uma polaroide do passado e uma nikon imaginária para registrar o porvir

Foto Fernanda Pompeu Foto Fernanda Pompeu

Camila em sua odisseia particular: se encantará com a mudez das sereias? O pranto das hienas? A graça dos urubus? Confundirá a terra com o mar? O homem com a mulher? A ave com o morcego? O enigma com a esfinge? Não roubará? Não matará?

Ela será capaz de cumprir o destino que o acaso pelos seus dedos soletrou no globo? Ela é confiante, ela é confiada. Quer ser pote sem fundo a recolher as águas das aventuras. Cozinha esperanças em fogo alto. Aguarda que a luz invente veredas – para chegar, expressa, a Veridiana.

Ouve o galo anunciar: Vai nascer mais um dia, vai nascer menos um dia. Se comove com a ideia de que, por mais uma manhã, seguirá sendo eterna. Inicia o ritual do adeus: acaricia o fogão que chora quatro bocas. Lança uma lágrima ao carrilhão que em sua homenagem paralisa os ponteiros, em cópula, nas seis horas. Com sopro âmago extingue a chama do lampião.

Se despede do galpão de artesanias formado por cantos de intimidades compartidas – testemunha de um defunto outono que a viu nascer. Tudo acabado.

fora o sol carrega nas tintas da palheta vegetal, a alba delira. No galpão repousa a delicada fragrância da madeira de cedro. O cérebro de Cá Camila sussurra: Hora de partir – fina lâmina corta o olho, nó górdio trança a garganta, cano de pistola na têmpora, adaga no ventre. Ela põe os pés no ar. Não volta o rosto. O que ficou é morto. Seu objetivo é alcançar Veridiana. Mas antes é preciso chegar ao porto.

Quando o sol desovou o dia, ela ciscou o mundo. Pisou profundo na terra. Na dividida: metade parte com o mapa do retorno escrito a fogo, metade vislumbra o futuro em todos os átomos. Corolário: as duas metades formam uma unidade: ela.

Camila não se lança em busca de sua identidade, o que parece querer é exatamente perdê-la. Atira pátina sobre a tradição. Está disposta a ceifar as raízes que floresceram sua vida. Carrega dois maços de espinafre da horta e uma fotografia polaroide do passado. Nas mãos, uma nikon imaginária para registrar o porvir.

Notas de promessas desafinam o cotidiano, provocando uma polifonia de combinações. O coro doméstico perde uma voz, a de quem soletrou ao acaso o itinerário do próprio destino. Mas para alcançar o porto, e daí Veridiana, é preciso transpassar o bosque.

Abrir as cortinas da retina. Regular a máquina dos sentidos. Se orientar nos sendeiros que se bifurcam. Comer as paisagens de passagem. Conviver com a umidade da grama. Proteger o rosto da fúria do sol. Copiar a agilidade dos lagartos. Desviar-se das temerosas cobras. Observar as áreas de sombra: Lutar contra o exército de muriçocas. Saltar pequenos córregos. Não se ferir nos espinhos. Diferenciar o bom do mau cogumelo. Ter a intuição como guia e, sobretudo, não retornar os passos.

Camila é capaz de tudo isso, não por qualquer ciência, sim por uma alquimia filosofada nos olhos. A energia onírica que em Alegria se concentrava nas mãos, nela está represada no olhar. Viver e ver mesclados – dois verbos com o mesmo significado.

Nas tantas horas que precisou para atravessar o bosque, cerzindo com o coturno-agulha sua passagem para o mar, Cá Camila saboreou nuanças de beleza: pôde apreciar as vangoghnianas gradações do verde, o movimento nervoso do vento nas folhas, a conversação das pedras, o rouxinolear entre o Melro e o Pássaro Azul. Foi capaz de compreender que era o caminho que a fazia caminhar. E sorriu.

A uma certa altura avistou na entrada de uma gruta o filhote de morcego Estrela Negra. Com asinhas de vampiro ele acenou para ela, que respondeu ao cumprimento com o bater de sua capa negra. Foi então que o camafeu marinho – que pertenceu a Organsim – se desprendeu da lapela e mergulhou nas asas do vento. Cá Camila nada pôde e ficou séria.

De repente: a sensação de que as grandes partidas trazem incubadas a vacina contra os retornos. À medida que avança em direção ao destino, o galpão de artesanias vai conquistando o status de simples moldura na vasta pinacoteca da memória.

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8 respostas para “11 A viagem começa”

  1. Ricardo disse:

    Que beleza! Obrigado Fernanda pela serenidade da sua escrita

  2. Regine disse:

    Amei, amo Cá Camila e seu modo viajante de ser.

  3. Maria Cristina Gonçalves disse:

    Essa Camila lembra um pouco a minha caçula, de mesmo nome. É meio louco você ir tentando entender uma filha, tentando ajudar e sempre se surpreendendo com o fato de que elas estão sempre se superando. Será que as personagens são filhos também?

  4. Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

    Maria Cristina, nunca pensei que personagens possam ser filhos. Mas acho que faz sentido. Como escrevo muito sobre o passado, meu pai e minha mãe são grandes inspiradores de personagens. E olha, obrigada pela leitura e pelo comentário. Sempre.

  5. Luciola Pompeu disse:

    Adoro este CA Camila.

  6. Fernanda Pompeu Fernanda Pompeu disse:

    Super, Luca.

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